bullit

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O suor lubrifica o volante da Maseratti, enquanto as luzes e neons se borram em manchas de Rorschach warp speed. Monet Mach-7, o impressionismo se tivesse sido criado por Marinetti. Agora acredito em fantasmas. São os guardas de trânsito, as velhas com pacotes, os senhores de terno, as mulheres fazendo jogging e todos os outros que passam como poltergeists pelas janelas laterais - visão insulfilm do purgatório. Meu pé direito pisa com mais força, apesar da câimbra. Os dois lados do meu cérebro se hiperativam, concentração e ecstasy da velocidade. E não, você ainda não entendeu. O que me move tão rapidamente para a frente não é a competição, tampouco um instinto sádico. Também errou se pensou em amor pela "adrenalina" e termos igualmente cafonas. O combustível da minha Maseratti é a dúvida; a indefinição sobre o que virá primeiro: o choque ou o orgasmo.

145 Gramas - Epílogo: Arbuckle

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Cinco anos atrás.

O barulho do osso batendo na madeira podia ser ouvido do lado de fora do Travis Bar. “Bar” é um eufemismo para “grupos de sujeitos de qualidade duvidosa bebendo cerveja e jogando sinuca”, mas “Mad” gostava do lugar. Ali, ele era apenas mais um rosto, passando desapercebido pela multidão de rostos alcoolizados.

Ao abrir a porta, um bafo quente e um cheiro rançoso passearam pelo seu rosto. Figuras conhecidas há anos cumprimentavam “Mad” com um discreto e respeitoso aceno com a cabeça. Ficou observando o jogo em uma das mesas por um tempo - “Piccadilly” estava prestes a ganhar mais dinheiro graças à total falta de habilidade manual e senso espacial distorcido de Peter “Pequeno”. Não tardou para que o de sempre acontecesse: Travos o visse ali e o recebesse efusivamente.

- “Mad” Williams! Sim, é “Mad” Williams - bradava o velho.

- Oi, Travis - cumprimentou “Mad”.

- É sempre ótimo receber você por aqui, seu safado. Sabe, fui visitar meu filho hoje. Já lhe falei dele, não é? Doente, coitado. Bom, ele está...

Como também sempre acontecia, “Mad” desligou os ouvidos ao perceber que o tradicional blá-blá-blá de Travis sobre o filho doente havia começado. Enquanto Travis falava, os dois caminhavam para o “escritório” de Travis - na verdade, uma saleta exígua onde uma mesa e um frigobar se espremiam entre incontáveis engradados e caixas. Foi somente quando estavam na porta que dava para a saleta que Travis disse algo que fez a audição e a compreensão de “Mad” novamente pegarem no tranco:

- ...Foi lá que vi seu pai, você sabe. Lá no Arizona.

“Mad” enrijeceu e parou de caminhar. Seu rosto estava sério.

- Meu pai, você disse? Você tá me dizendo que viu o meu pai, Travis?

- É, foi o que falei.

Fez-se uma pausa momentânea.

- Onde? - perguntou “Mad”, com estudada indiferença.

- NoArizona! É lá do Arizona que a gente tá falando!

“Mad” repentinamente voltou a andar e empurrou a porta, entrando na saleta:

- Não importa onde meu pai está. Esse assunto acabou, Travis.

O velho concordou, relutante, mas manteve silêncio. Sabia como “Mad” ficava irritado com esses assuntos. Os dois sentaram ao redor de uma mesa quadrada de madeira e logo um velho atarracado trouxe dois copos de cerveja. Travis, em uma súbita decisão, arriscou-se a falat sobre outro assunto-tabu para “Mad”:

- E aí? O que tem feito?

- ... Nada de mais. Alguns serviços, você sabe.

O “sabe” foi pronunciado de forma a advertir Travis de que era melhor não seguir por esse caminho. O velho percebeu e imediatamente falou sobre a primeira coisa que lhe veio á cabeça:

- Foi fácil estacionar lá fora, “Mad”? Nos sábados à noite a rua fica cheia de carros.

“Mad” fez que sim com a cabeça, como se não tivesse pensado nisso antes. Travis prosseguiu:

- Por falar nisso, ainda é o mesmo carro?

- Sim.

- É um ótimo carro! É o que eu digo para qualquer vagabundo que me pergunte: os melhores carros foram feitos nos anos 70. Nada dessa viadagem de carros japoneses atuais, com esses formatos escrotos, cheios de babaquices no painel que você nunca vai usar mesmo. É que nem telefone celular: só inventam coisas que você nunca vai precisar! Porra, Steve McQueen dirigia carros dos anos 70. James Caan, Gene Hackman, Lee Marvin, todo esse pessoal. E se McQueen dirigia um carro dos anos 70, quem é o velho Travis pra discordar dele? Eh, eh.

“Mad” iria dizer que Steve McQueen só dirigia carros dos anos 70 porque ele ESTAVA nos anos 70, mas achou melhor calar a boca e se poupar de explicações mais longas. Mas explicações mais longas estavam reservadas para ele aquele dia:

- Como é mesmo o nome dele?

- Arbuckle.

- Isso! Por que esse nome? Aliás, esse é outro excelente costume que se foi: as pessoas hoje não dão mais nomes aos seus carros. Não entendo como alguém pode batizar uma criatura tão estúpida como um cachorro, por exemplo, e não se dar ao trabalho de pensar em um bom nome para o seu carro! lembra da minha velha Mary Jean? Aquilo sim era um carro...

Em uma rara exceção, “Mad” se animou ao pensar que Travis entraria em mais uma de suas intermináveis reminiscências, pois isso o pouparia de contar a longa história do Arbuckle. Mas estava errado:

- E então? Por quê esse nome? Arbuckle... É um bom nome para um carro como aquele, mas não muito comum, pelo que sei de nomes de carros.

“Mad” olhou para Travis, suspirou, deu um longo gole na cerveja à sua frente e começou:

- Bom... Arbuckle... É, você sabe, eu comprei esse carro em 1977. Então, quando eu comprei, ele era um carro zero quilômetro. Mas ele me dá sorte. Por isso nunca me desfiz dele.

“Percebi que ele me dava sorte assim que comecei a rodar com ele. Na primeira semana, ele parecia saber sozinho o caminho das ruas, tão macio que estava rodando. Logo vi que era um carro realmente muito bom. Na época eu trabalhava como gerente de um Kentucky Fried Chicken e consegui juntar uma grana pra comprar o carro.

“Foi aí que as coisas ficaram estranhas... Você sabe, já lhe falei sobre isso. Fui demitido, fiquei meses sem emprego. Longos meses, fazendo bicos. Então tive a idéia mais importante da minha vida. Talvez não tenha sido a mais brilhante, mas foi sem dúvida a mais importante. Fui procurar o Jack “Mármore”.”

Travis baixou a cabeça ao ouvir aquele nome. “Mad” continuou:

- Você se lembra Travis, “Mármore” era quem mandava na época. Isso foi bem antes do Ted “Payola” aparecer e da Máfia italiana ressurgir da merda onde tinham se enterrado nos anos 70. O “Mármore” era um cara alto, forte como um muro de tijolo - ou, bem, de mármore. Inteligente e esperto como o diabo. Ele morava numa mansão em Long Island, em plena Quinta Avenida. Naquela época esse pessoal era mais folgado.

“Bom, até que não foi muito difícil chegar até ele. Pedi que o “Vitrolinha” me indicasse. Lembra do “Vitrolinha”? Tinha sido meu amigo de infância. Morreu poucos anos atrás, espancado pelo pessoal do Paolo “Girafa”. Mas, bom, o “Vitrolinha” conseguiu uma hora pra mim com o “Mármore” e eu fui lá me oferecer pra trabalhar pra ele. Tava desesperado, sem grana, sem emprego. E pensei: ‘bom, isso é temporário. Daqui a pouco eu arranjo um emprego mesmo e deixo isso pra trás’. Bom, as voltas que a gente dá no próprio eixo...

“O “Mármore” me olhou com certa dúvida, ainda que com respeito. Afinal, era muita cara de pau ir lá propôr isso pra ele. Acho que foi pelo descaramento que ele me deu uma chance. Ele foi até uma sala, mexeu numa estante e voltou com uma foto. Era aquele cara. O primeiro cara que eu teria que matar na vida. Larry Arbuckle.

“Arbuckle era um texano de uns 40 anos, magrelo e todo frágil, mas era chamado o ‘rei dos bookmarkers’. Ele fez alguma merda que deixou o “Mármore” bem puto. Grana, claro, alguma coisa assim. “Mármore”foi bem claro: o serviço tinha que ser rápido, limpo e parecer um acidente. E o pior: tinha que ser feito no dia seguinte, sem falta.

“Fiquei assustado: nem arma ainda eu tinha. Quem me arrumou minha primeira arma, uma Mauser alemã cheia de paradas, foi o “Historinha”, claro. saí da mansão do “Mármore” direto pra casa do “Historinha” e ele me arranjou na hora essa arma. Arma bem estranha, eu só tinha visto uns Colts e automáticas americanas.

“Bom, fui pra casa - na época eu ainda morava em um apartamento no Bronx - e tentei pensar em algum esquema. No dia seguinte, o tal Arbuckle ia estar jantando no Rosalind’s Milk-Shakes, em Tribeca. O lugar era um daqueles restaurantes-trailers enormes, que havia escapado do final da década de 50 se escondendo em algum buraco da cidade.

“Dormi bem mal naquela noite e não foi por menos: além de toda a situação e de tudo o que estava em jogo, tanto pra mim como pro “Mármore”, era uma coisa delicada. O “Mármore” tinha sido claro: ia me dar uma chance pela minha coragem de ir lá falar isso com ele, mas o caso do Arbuckle não era um teste. Era um lance alto - e ele foi claro: se o cara não morresse aquele dia ou se eu cagasse o esquema de alguma forma, era eu quem iria morrer. Se tudo corresse bem, eu tinha a “vaga”. Ele não disse isso com essas palavras, claro, mas foi o que havia ficado bem claro pra mim.

“Pra encurtar a história, no dia seguinte lá estava eu, às sete da noite, estacionando o Mustang ainda novo na calçada oposta à do Rosalind’s. Era uma avenida larga, deserta e bem escura. Vários mendigos dormiam nessa calçada, ao lado dos carros estacionados. Desci do carro, atravessei a avenida, que estava praticamente sem trânsito, e entrei na tal lanchonete. A Mauser, claro, tava no meu bolso, mas eu não iria matar o cara ali. Iria esperar ele sair, segui-lo e então fechar com ele em algum beco por ali.

“Parecia tudo tranquilo, exceto que... os minutos passavam e nada de aparecer ninguém semelhante ao sujeito da foto que o “Mármore” tinha me dado. Eu já tava na quinta cerveja, quando me toquei que, naquelas circunstâncias, seria a coisa mais idiota do mundo continuar benendo. Ao invés da sexta caneca, pedi uma Coca-Cola e um cheeseburger, pra dar uma equilibrada.

“Eu olhava a cara de todo mundo que entrava; já tinha checado todo mundo que estava nas mesas e no balcão; tinha ido até ao banheiro e aberto os reservados, um por um. Nada. Claro, já tinha até reparado nas garçonetes, pra ver se uma delas não era um cara disfarçado. Idéia cretina, eu sei, mas são nessas coisas que você pensa nessas horas. Eu já tinha praticamente decorado a posição de cada objeto do lugar; já conhecia intimamente as ranhuras do tampo da minha mesa. Estava ali há quase três horas e meia, quando finalmente o último freguês saiu e a garçonete veio me avisar que estavam fechando.

“Terminei minha quarta Coca-Cola de um só gole, deixei o dinheiro sobre a mesa, levantei e saí. Mal passei pela porta, a moça que havia me servido arriou as portas de segurança do trailer. Na rua à minha frente, apenas silêncio.

“Ainda andei um pouco por ali, cerca de vinte, vinte e cinco minutos. Nada. Apenas escuridão e a buzina de um esporádico carro a vários quarteirões de distância. Aquele lugar desgraçado me arrepia até hoje. Finalmente desisti e caminhei cabisbaixo até o carro. Eu estava perdido. Naquele momento, tive certeza de que “Mármore” ia mandar darem cabo de mim assim que soubesse do meu fracasso.

“Entrei no Mustang e liguei o rádio. Isso sempre me ajuda, é um hábito que mantenho até hoje. Estava em um talk-show. Uma mulher reclamava que o marido dela a havia deixado vinte e três anos antes - e o disc-jockey repetia no ar o nome do sujeito, para que ele entrasse em contato com ela. De alguma forma, aquele diálogo me animou. Liguei o carro e comecei a manobrar para sair da vaga. Quando dei a ré, senti um solavanco e um barulho de ovos se quebrando.

“Me assustei com aquilo. Quando estava já na avenida, voltei a dar a ré para emparelhar com a vaga que eu estava ocupando. Meu coração veio à boca.

“O calçamento estava repleto de sangue, que brilhava à luz da Lua. No canto, estava caído um mendigo, com a cabeça esmagada pelo pneus traseiro. Eu matei o velho quando dei a ré para manobrar e sair da vaga. A cabeça praticamente tinha desaparecido, estalado como se fosse uma noz. E, diabos, era um mendigo. Não tinha nada a ver com a história.

“Eu era um total fracasso. Voltei para casa quase a 30 quilômetros por hora, me sentindo o último dos seres humanos. De volta ao meu apartamento, só consegui dormir por dois motivos: a depressão havia me deixado mole e cansado de forma estranha; e a certeza de que aquela seria a minha última noite de sono nesta vida. No dia seguinte, “Mármore” iria começar a encomendar o meu caixão. Naquela noite tive pesadelos, com lápides de mármore caindo do céu e esmagando a minha cabeça.

“A manhã estava alta quando acordei. Umas dez. Levantei, como quem vai para o cadafalso. Fiz um café ralo, bebi e abri a porta para pegar o jornal. Voltei a me sentar na mesa, lendo as manchetes: ‘epidemia’ de cocaína nas discotecas; problemas no Oriente Médio; crise do petróleo. Era uma espécie de versão pocket do que acontece hoje, aquela época. A qualquer momento eu iria receber notícias de Mármore”. Pelo telefone, com certeza, já que ele havia exigido meu número e endereço como condição para que trabalhasse para ele.

“A inércia me fez ligar a TV. No jornal da manhã, as mesmas notícias. Então, começou o noticiário local e logo senti um arrepio. Ainda lembro as palavras da locutora como se fosse hoje:

- Vagabundo morre com a cabeça esmagada por um carro. Tudo aconteceu em Tribeca, em frente a uma lanchonete, na noite de ontem. O corpo do pobre diabo foi encontrado esta manhã, com a cabeça totalmente esmagada. Peritos da polícia acreditam, pelas marcas de pneus, que o mendigo foi morto por acidente, quando algum motorista tentou manobrar sobre a calçada. O velho foi identificado por amigos como Lawrence Martins Arbuckle, de 43 anos, que até o mês passado trabalhava como bookmaker. Amigos e parentes...

“Meus olhos pareciam estourar de tão arregalados. Eu simplesmente não podia acreditar naquilo.

“Bom, resumindo uma história longa demais: pelo que parece, Arbuckle era um alcoólatra e havia caído por ali antes que conseguisse chegar ao Rosalind’s. Naquele instante, desliguei a TV, saí do meu apartamento, fui até à rua e dei um beijo no capô do meu carro. Como ele também bebia bem, decidi que o nome dele dali para a frente seria Arbuckle. Eu tinha certeza de que isso me daria sorte.

- E, sabe de uma coisa, Travis? - disse “Mad”, dando o gole final em sua cerveja. - Ele tem me dado sorte até agora. Dirigindo um carro assim, o que pode acontecer de errado comigo?

Mustang 77
Mustang 77 é Arbuckle.


A seguir, estréia uma nova história, com novos personagens: O Círculo de Ossos.

145 Gramas - Capítulo 12

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Irritado, sabe? Eu tô começando a ficar realmente irritado. E agora ainda tem mais esse palhaço. Não bastasse me mandar matar meu próprio pai, o cretino do Andrea ainda coloca esse redneck racista na minha cola. Ele continua apontando o 45 pra mim. Eu digo, me esforçando em manter a calma:

- Olha aqui, cara, o combinado era matar o paciente do hospital OU algum conhecido meu. Fica tranquilo que eu vou cumprir o combinado. Sempre faço isso, infelizmente. Mas não vou matar o paciente desse hospital. Agora, me deixa ir embora porque tenho que procurar algum... conhecido para matar.

- Fala só quando eu mandar, negro. E não me lembro de ter dito “fale, negro”. Sabe, eu adorei pegar o serviço que você recusou. O cara do posto de gasolina aqui de Jersey, lembra? Ele demorou umas três horas pra morrer. Aliás, isso me lembra que guardei um presente pra você.

Waters leva a mão esquerda ao bolso do paletó do terno branco e traz de lá algo em um saco plástico transparente. Ele olha por alguns minutos o conteúdo, sorrindo, e então joga no chão à minha frente.

- Anda, pega e dá uma olhada. É um presente.

Eu me abaixo e quando vejo mais de perto, percebo que o que está dentro do saco plástico é uma orelha humana. Eu me levanto enojado, sem tocar naquilo.

- Bonito, não é? Uma fedorenta orelha negra. Sabe, normalmente eu guardo em potes de formol, mas achei que você fosse gostar de um mimo.

Ele ri e continua:

- Ficou com nojinho? Eu também ficaria. Pedaços de negros são, ewwww. - e fez uma careta. - Sabe, negro, detesto serviços pela metade - mesmo os que não são meus. Acho que vou entrar nesse hospital de derrotados e meter uma bala entre os olhos desse tal paciente. Qual é o apartamento dele?

Ele pressiona um pouco mais o indicador no gatilho e o disparador começa a se levantar. Esse cara é louco. Preciso ter cuidado. Eu baixo mais o tom de voz e começo a me aproximar, da forma mais lenta e imperceptível que posso.

- Escute... Não há motivo para ficar nervoso. Eu estou fazendo o que foi combinado. Andrea e Myrtes me disseram que, se eu não matasse o paciente do Arizona Asylum, deveria matar algum conhecido meu. É isso o que estava indo fazer. Então, por que não me deixa ir agora e...

Quando estou mais perto, dou um chute, raspando a ponta do tênis no chão, jogando boa parte do barro seco do terreno na cara de Waters. O psicopata fica cego por um momento e leva a mão esquerda aos olhos. Mesmo assim, resolve atirar. O ruído do Colt 45 ressoa como um jipe Camel Trophy, ecoando no terreno baldio. Mas isso deu tempo de sacar a minha automática e atirar com vontade no braço direito do animal. Ele dá um gemido agudo e deixa a arma cair no chão. Eu rapidamente me aproximo e dou com a culatra da automática na testa dele.

Enquanto Waters cai no chão, cego pelo barro e com sangue escorrendo por sua testa, eu tomo o Colt caído do chão. Olho para o idiota e digo, me esforçando para não gritar:

- Agora, escute aqui, seu pedaço de merda de vaca da Louisiana. Não me importa se em Dogshit, Cowbutt, Cockville ou sei lá de que buraco você veio é normal amarrar gente em cruzes e tacar fogo nelas. Você tá em Nova York, seu merda. Muito, muito longe dos seus amantes da Ku Klux Klan. E, se quer saber, duvido que numa cadeira de rodas você consiga matar um mero marimbondo negro, se quiser.

- Cadeira... de rodas? O que você tá dizendo, seu neg...

Dois tiros da automática no joelho direito dele. O desgraçado grita como um siamês no cio. Mais dois tiros no joelho esquerdo, de brinde. Ele se contorce na poeira, esquecendo até mesmo a areia nos seus olhos. Eu tiro as balas do Colt dele e jogo longe, em meio ao mato alto dos cantos do terreno. Em seguida, faço o mesmo com a própria arma, arremessando-a longe.

Encosto o cano do silenciador da minha automática na testa dele e digo:

- Sabe, eu preciso matar um conhecido agora, já que NINGUÉM vai matar paciente algum deste hospital. A sua sorte, seu monte de cocô, é que não conheço idiotas ou você já estaria indo para inferno a essa hora. E de cadeira de rodas.

Dou as costas ao imbecil e o deixo sangrando, gemendo alto e se contorcendo no terreno baldio. Sabe, não me importa quem você é. Mas, se for esperto, não vai cruzar meu caminho agora. Eu saio pela rua de trás do hospital, com a arma já escondida na jaqueta. Dou a volta no quarteirão até chegar ao Arbuckle, estacionado na porta da frente do Arizona Asylum. Em minutos, estou dirigindo a 120 quilômetros por hora pelas ruas escrotas de Jersey.

Pouco mais de uma hora depois, estou parando o carro na viela ao lado do prédio onde mora Myrtes Rigazzalli. Saio do Arbuckle e caminho até a portaria do edifício. Entro e alguma coisa nos meus olhos faz o velho porteiro gaguejar:

- B...bom dia. Em que...

- A Sra. Rigazzalli.

- Ela não está... Ela...

Eu tiro a arma do bolso e encosto na testa dele.

- Fale a verdade. Eu acho melhor.

- Eu juro! Eu juro! Ela saiu ontem à noite, acompanhada por um cara. Me disse que ficaria várias semanas fora... Eu juro!

- Fora? Onde?

- Eu não sei! Mas é verdade! Ela saiu ontem com esse cara e não voltou. Passou a noite fora e ela faz isso às vezes. Fica semanas fora do apartamento. Da última vez, ela tinha ido a Paris. Você... você pode subir até o apartamento dela pra confirmar isso. Não tem ninguém lá!

- Sei, eu subo e você chama a polícia.

Dou as costas e saio do prédio. Desgraçados. Sumiram. Paris, é? Porra, não vou seguir essa piranha e o cachorro do Andrea até Paris. Isso não é um maldito filme. Mas e se... e se não foram pra Paris? E se foram pra Mansão Rigazzalli?

É... E mesmo que tanham ido, isso não muda nada. Eu não tenho como entrar naquela mansão, cheia de mafiosos. Devem ter uns 40 capangas lá dentro, se não for mais. Dobermanns e o caralho. Droga!

Eu volto a me sentar no interior do Arbuckle, espumando de ódio. E tento pensar. É, Paris e a Mansão estão fora de cogitação. E, merda, eles têm o meu dossiê. Se eu vacilar nisso, me entregam pra Polícia. É, não adianta, “Mad”. Você foi um idiota se metendo com gente desse tamanho.

Eu coloco a arma no banco do carona e recosto a cabeça. Tento relaxar e pensar. Eu ligo o rádio e tento pensar. Marvin Gaye está cantando “Mercy, Mercy Me”. O que foi mesmo que Andrea disse? Se eu não matar o paciente do hospital, devo matar uma pessoa claramente ligada a mim. Ele fez isso de sacanagem, claro. Ele sabia que eu não iria matar meu próprio pai. Filho da puta. Mafioso desgraçado.

“Woo ah, mercy mercy me
Ah, things ain't what they used to be, no no
Where did all the blue skies go?
Poison is the wind that blows from the north and south and east
Woo, mercy, mercy me, mercy father
Ah things ain't what they used to be, no no”

As palavras de meu pai ressoam na minha mente: “não seja um perdedor. Não seja um perdedor. Não seja um perdedor.”

“Woo ah, mercy mercy me”

É... Não adianta perseguir Myrtes Rigazzalli, Andrea Porrazzo nem enfrentar toda a máfia nova-iorquina. Eu tô cansado disso. Realmente cansado disso.

“Não seja um perdedor.”

Cansado... E se eu matar Myrtes e Andrea, o dossiê com meu nome, o arquivo com todos os meus podres, vai parar na mão de alguém da Polícia. Sem falar que, se eu matar um deles, o outro pode imediatamente dar a ordem para que matem o meu pai. Encare os fatos, “Mad”. Você perdeu. E mais: perdeu feio, porque ainda não matou a tal última pessoa que eles exigiram em troca da minha segurança para sair de Nova York. Um conhecido... droga, eu não vou matar um conhecido.

“Não seja um perdedor.”

Marvin Gaye... Marvin Gaye não foi um perdedor. O cara foi meu maior ídolo nos anos 70. Marvin Gaye... Marvin Gaye é daquelas pessoas que aparecem uma vez por século no planeta. Marvin Gaye foi um vencedor.

“Woo, mercy, mercy me, mercy father”

Pai... Marvin Gaye morreu assassinado pelo próprio pai. O velho discutiu com ele e atirou em Marvin Gaye no dia do aniversário dele. Um vencedor... Um perdedor?... Não, “Mad”, não entra nessa, cara. Não pensa nesses termos. Todos somos perdedores e vencedores. Perder pouco é uma vitória. Ganhar mas não ganhar tudo que se quer é uma derrota. O contrário das duas frases também vale. Não existem vitórias nem derrotas. Existe apenas a luta.
Morrer assassinado pelo próprio pai... Alguns pais fazem coisas horríveis com seus filhos. Mas não adianta pensar em Marvin Gaye, vitórias, perdas e danos. Meu pai só continuará vivo se eu seguir o jogo do Andrea; merda, EU só continuarei vivo se seguir o jogo dele. Afinal, quem apostou nessa banca fui eu. Hora de pagar. OK, Andrea... aproveite bem sua vagabunda, seu dinheiro e seu grande poder. Enfie tudo isso no rabo. Eu não me importo. Quero sair desta cidade maldita, suja. Quero ficar em liberdade. Nada mais de mafiosos nova-iorquinos, de “Mambo”, de toda essa polícia patética e dessa vagabundagem. Vitórias e derrotas. Hora de mudar o jogo e pra isso eu preciso seguir esse último serviço.

“Woo, mercy, mercy me, mercy father”

Uma pessoa claramente conhecida minha, ligada a mim de alguma forma. OK, eu já sei o que fazer.

Ligo o Arbuckle e saio cantando pneus daquela viela desgraçada. Mas, entendam: uma coisa é chegar à conclusão de que se está num beco sem saída; outra coisa é gostar disso. Impedi a mim mesmo de tomar um caminho que só me levaria a mais e mais merda, mas resignação não é calma. Continuo louco da vida. Como uma despedida, passo com o Arbuckle por uma última vez pelo edifício onde ficava o escritório do Ted; todas as janelas agora estão tapadas por pedaços de madeira e lacradas. Em minutos, estou passando pelo Nero’s. OK, cara. Obrigado por tudo. No fim das contas, vou ter que seguir o seu conselho e ir viajar. Não vou esquecer do seu cartão.

Mas nada disso muda o fato de que por causa de um mafioso desgraçado eu fui enviado para matar meu próprio pai. Nada disso muda o fato de que algumas vezes se perde gigantescamente. Mas se tenho que correr de Nova York, vou embora com uma explosão. Após matar tanta gente, vamos dizer que acabo de pensar em uma boa despedida.

Pensar sobre toda essa situação me deixa mais puto e nervoso do que eu já estava. Piso no freio do Arbuckle com tanta força que as minhas coisas caem no chão, no banco de trás. Desço do carro e deixo a porta aberta, com o motor desligado. Não vou demorar mais do que dez segundos no meu antigo prédio.

Saco a automática ainda na calçada. Um chute e a porta da frente do edifício se escancara. O vidro se espatifa, pedaços voando pelo corredor. Quando estou subindo as escadas, sinto o olhar da Sra. Williams às minhas costas. Por algum motivo, sei que ela está sorrindo, mesmo que não tenha me virado para olhar para ela. No segundo andar, tomo distância e pulo com as duas pernas sobre a porta de um dos apartamentos. Um pedaço circular de metal com os números “201” gravados salta a metros de distância.

“Mad” Williams entra no apartamento e vê um homem com uma garrafa de whiskey e uma faca nas mãos. Os olhos de “Mad” parecem querer saltar das órbitas. Seu rosto é puro ódio, prestes a explodir. Ele grita para o homem:

- Sr. Johnson??! Sabe quem eu sou, senhor Johnson?!

O bêbado ri e toma mais um gole do whiskey vagabundo. E então diz:

- Sei. É o crioulo que mora no 205.

- Bom saber que me conhece.

“Mad” aperta várias vezes o gatilho de sua automática. O som das balas saindo pelo silenciador parece o de metal batendo em uma armação de arame. As duas primeiras acertam a cabeça de Johnson; as próximas três acertam seu peito. As balas saem com vontade, como se “Mad” quisesse exorcizar a si mesmo; como se fingisse que alguns pedaços seus saíssem para sempre junto com as balas. E assim segue, até que “Mad” está apertando o gatilho, mas apenas um leve “clique” é ouvido.

Ele coloca a automática no bolso, pega uma cadeira de jantar e joga de encontro à janela do apartamento, que se espatifa. Então, levanta o corpo do senhor Johnson nos braços e, com pouco esforço, o joga do segundo andar em direção à rua. Ele grita:

- Pronto, tá aqui, Andrea! Seu presente, seu filho da puta! Tá aqui, tá vendo?!

Antes do cadáver atingir a calçada, “Mad” está com a televisão nas mãos, arremessando-a de encontro a uma parede. O estrondo do aparelho explodindo se mescla a um grito interminável. “Mad” parece se assustar com o ruído, até perceber que o som estava vindo de sua própria boca.

Finalmente, ele sai do apartamento. Ninguém está no corredor. Uma porta estava entreaberta, mas se fecha assim que ele passa e “Mad” escuta o ruído da chave girando na fechadura no lado de dentro. Quando chega à porta de entrada, a Sra. Williams está olhando para ele. Uma estranha expressão de orgulho e alívio está em seus olhos, mesclada ao medo. “Mad” para diante dela e leva a mão aos bolsos.

Ele examina algo, de costas para ela. Então se vira e diz:

- Aqui você tem dez mil dólares, sra. Williams. Vá morar em outro lugar.

Então, “Mad” entra no seu carro amarelo e sai a toda velocidade.





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Três dias depois, eu estaciono o Arbuckle em frente a um restaurante de beira de estrada no... onde é isso mesmo? Sei lá, não estou olhando o mapa nem as placas de beira de estrada. É um lugar. Onde se come.
Eu peço um bife com cebolas e uma cerveja. A garçonete olha para mim com curiosidade e indiferença (incrível como o interesse pode ser indiferente).

Nunca comi um bife tão delicioso.

Na saída do lugar, reparo em um mostruário de cartões postais gratuitos. Penso se não existe algum adequado que eu possa enviar para o velho Mitchell Carruthers Williams. Como são cartões publicitários, todos são cruelmente adequados: fotos de garrafas de Jack Daniel’s e Southern Comfort, brilhando naquele tom de madeira envernizada que somente os anúncios de bebida conseguem ter.

Seria engraçado um velho ex-alcoólatra receber pelo correio, enviado de uma esquina do nada com o lugar nenhum, um cartão do filho que abandonou há mais de 40 anos, com a foto de uma garrafa de whiskey.

Sim... seria engraçado. Mas também seria a atitude de um perdedor.

Eu procuro durante mais alguns segundos. Um dos cartões têm a foto de Marilyn Monroe em Some Like It Hot. Não, esse não... Robert DeNiro... Woody Allen (diabos, quem vai pegar um cartão com a cara do Woody Allen nesse refúgio de caminhoneiros e rednecks?). Então, finalmente encontro. Sim, aqui está ele. Cassius Clay. Olho para o velho Muhammad Ali, as luvas em primeiro plano, a boca entreaberta em desafio. E então guardo o cartão no bolso.
Na próxima cidade deve haver uma agência dos Correios. Seja lá qual for a próxima cidade. Reabasteço o Arbuckle no posto de gasolina ao lado do restaurante. O sol do meio-dia reflete no para-brisas. A estrada segue em linha reta até onde a vista alcança. O asfalto parece tremer e se evaporar com o calor. É lá mesmo.

Lá, no fim dessa linha reta. Lá que eu vou encontrar... o quê? Outra linha reta, provavelmente. E mais outra. E mais outra.

Mas não é sempre assim?


Além do mais, os melhores jabs de esquerda seguem em linha reta.


FIM


145 GRAMAS



Escrito e dirigido por
Alexandre Mandarino



cast
(in order of appearance)
Forrest Whittaker.............................................Muhammad Williams
John Turturro...................................................Andrea Porrazzo
Joe Pantoliano..................................................Ted “Payola”
Anthony Zerbe..................................................Nero Goldstein
Laura Harring....................................................Myrtes Rigazzalli
Chris Penn........................................................Jock Rigazzalli
Joe Pesci..........................................................Rick “Mambo” Wood
Spike Lee.........................................................Matt “Historinha” Smith V
Tim Roth...........................................................Waters



e
Morgan Freeman
como
Mitchell Carruthers Williams

xxxxxxxxxx............................................................Sra. Williams xxxxxxxxxx............................................................Sra. Johnson xxxxxxxxxx............................................................Mike Johnson xxxxxxxxxx............................................................Tim xxxxxxxxxx............................................................Paul “Pirulito” xxxxxxxxxx............................................................Sr. Johnson xxxxxxxxxx............................................................Porteiro xxxxxxxxxx............................................................Policial xxxxxxxxxx............................................................Gangster 1 xxxxxxxxxx............................................................Gangster 2 xxxxxxxxxx............................................................Gangster 3 xxxxxxxxxx............................................................Gangster 4 xxxxxxxxxx............................................................Gangster 5 xxxxxxxxxx............................................................Gangster 5 xxxxxxxxxx............................................................Gangster 7 xxxxxxxxxx............................................................Gangster 8 xxxxxxxxxx............................................................Enfermeiro 1 xxxxxxxxxx............................................................Enfermeiro 2 xxxxxxxxxx............................................................Enfermeiro 3 xxxxxxxxxx............................................................Enfermeiro 4 xxxxxxxxxx............................................................Rastafari xxxxxxxxxx............................................................Recepcionista xxxxxxxxxx............................................................Garçonete

Participação especial de Ford Mustang 1977 como Arbuckle

Trilha sonora lançada pela Chip Totec Records


“Mercy Mercy Me”
performed by Marvin Gaye

“Strange Fruit”
performed by Billie Holiday

“Meet The G That Killed Me”
performed by Public Enemy

“Rockit”
performed by Herbie Hancock

“It’s Great To Be Here”
performed by Jackson 5

“Right Place Wrong Time”
performed by Dr. John

“And The Beat Goes On”
performed by Whispers

“Hot Pants”
performed by James Brown

“The Missing Suitcase”
performed by The Herbaliser

“Waiting For a Train”
performed by Flash and The Pan

“Last Bongo In Belgium”
performed by Incredible Bongo Band

“Almost Easy Listening”
performed by Kid Koala

Original Soundtrack composed by Terminator X

Gostaríamos de agradecer aos cidadãos de Nova York e Nova Jersey por sua colaboração e extrema paciência.

Todos os personagens são fictícios e qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas será mera coincidência.

Nenhum animal foi molestado ou machucado durante a criação desta história.

Visite o site oficial em http://hypervoid-pulp.blogspot.com/

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(Amanhã: Arbuckle)

145 Gramas - Capítulo 11

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A ficha médica treme levemente na minha mão. O barulho do papel parece se alastrar por quarteirões e quarteirões. “Não saber o que dizer” fica muito, muito aquém daquela situação toda. Digamos assim: eu queria encolher e ficar ridiculamente pequeno até que meu corpo e toda a minha vida coubessem dentro de uma tupperware. A mistura de constrangimento, vergonha e raiva é algo indescritível, mas tenho certeza de que todos vocês sabem do que estou falando.
O ancião deitado na cama mantém o olhar de total falta de sentido e diz:

- Então... É isso. Você é mesmo Muhammad. E veio para me matar.

Eu balanço a cabeça em um gesto de negação, lento e automático. Tenho medo de ouvir a minha própria voz. Ele continua:

- Se não veio me matar, o que está fazendo aqui - justamente aqui, após todos, todos esses anos - me apontando uma arma? O que está fazendo aqui? O que está fazendo aqui com uma arma? - ele não parecia se decidir sobre qual aspecto mais o assustava. - Só pode ter vindo me matar.

- Eu não vim matar você - minha voz soou como a de um Mickey Mouse rouco e microscópico.

Soltando esta frase ao ar, guardo a pistola novamente no bolso da jaqueta. O que, claro, não muda em nada a situação. O velho recosta no travesseiro e olha para a parede, mas certamente enxergando ali outros cenários, já idos.

Sabe... - o velho balbucia, sem saber também o que dizer. - Sabe, eu... Eu não posso acreditar que meu próprio filho...

Então, ela chega. Claro. A defesa e a justificativa misturadas com a mágoa acumulada na minha carne ao longo de décadas e décadas. Eu falo:

- Seu próprio filho?! O filho que você abandonou com dois anos de idade! Como espera que eu reconheça você? A foto mais nova que tenho de você foi tirada há mais de 40 anos! E confesso que não olho muito para ela, então...

Um breve silêncio e ele torna a falar:

- Muhammad, eu...

- E como sabia que era eu? Como sabia que eu era seu filho?

- Eu... Soube. Alguns segundos depois que o vi entrar. Algo... algo me disse.

- Pfff! Isso é ridículo!

- Eu o vi umas duas vezes, cerca de seis anos atrás. No bilhar do velho Travis, em duas noites diferentes. Foi Travis, aliás, quem me mostrou quem você era, de longe.

- De longe... O seu “de longe” é o mais perto que esteve de mim em quatro décadas. E Travis, hein? Ele me disse que tinha visto você no Arizona ou alguma merda de outro lugar igualmente desgraçado. Arizona! E por que não me mostrou quem você era? Eu nunca o vi por lá. Aliás, nunca o tinha visto até hoje, com exceção daquela foto velha e amarelada. Isso...

Eu paro, sem saber se vou embora, se converso com ele, se sigo até o prédio de Myrtes e mato aquela vagabundo e o viada do Andrea, se sumo e esqueço toda essa merda... É novamente ele quem quebra o silêncio.

- A culpa é minha, Muhammad.

- Sério??

- Não, me escute... É difícil dizer isso e acho que não há mais tempo para que a gente entre em todo aquele negócio de “eu não devia tê-lo abandonado” e tudo isso. Nós dois sabemos disso. Mas o que estou dizendo é que a culpa é minha por você... ser o que é. Fazer o que faz.

Eu o encaro novamente, atônito. Como esse cara tem coragem de ainda por cima me dizer isso?

- Muhammad, eu... tinha vários problemas. Foi melhor para você e para sua mãe que eu desaparecesse, entende? Às vezes é melhor que fiquem apenas duas pessoas que se amam, sem nenhum... ninguém para atrapalhar.

- O que você quer dizer com isso?

- Quero dizer que eu era um alcoólatra, um inútil. Eu bati em sua mãe algumas vezes. Poucas, pode acreditar - e nada muito sério. Ao menos, não para os padrões de hoje, quando as pessoas se matam em suas casas... Mas achei melhor me afastar de vez. Eu saí de Nova York e não voltei para cá até sete anos atrás. Desde então estou aqui, nesta clínica. Ah, e o Travis lhe disse a verdade: ele não estava falando do Arizona, mas do Arizona Asylum. O filho dele está há anos internado no andar térreo e ele é a única pessoa que me visita, umas duas vezes por ano. Se tivesse ouvido com atenção a conversa dele, teria entendido que ele se referia a este hospital, não ao estado do Arizo...

- Foda-se o Travis! Foda-se o filho dele e aquela maldita sinuca dele e todo aquele papo escorregadio e chato dele. Foda-se tudo isso! Ele devia ter me dito!

- Não, ele disse... ou tentou dizer. Fui eu que pedi que ele não lhe contasse.

Eu balanço a cabeça, sorrindo sem acreditar. É quando ele faz algo surpreendente, que me faz parar de falar. O velho leva as mãos ao rosto e começa a chorar.

- Eu sempre fui um perdedor, Muhammad. Tudo que eu tentei fazer... Já ouviu falar em Midas? É o rei que transforma em ouro tudo o que toca. Bom, eu era um Midas, de certa forma. Tudo o que eu tocava virava merda. Eu era um perdedor. Sempre bêbado, andando com idiotas. Eu era o homem que tinha Muhammad Ali como ídolo e que só conseguia bater na própria esposa. O que queria que eu fizesse além de sumir? O que queria que eu fizesse??!

Parou por uns segundos, fungou alto e continuou:

- Eu sou um perdedor. Sempre fui um perdedor. Eu já havia arruinado a vida da sua mãe, mas não queria que meu filho fosse um perdedor, também. Eu me afastei para que você não me tivesse em casa, um farrapo patético, para tomar como exemplo. Eu desapareci para que você não virasse também um perdedor, um fracassado. Sabe, estou há sete anos neste quarto. A minha aposentadoria mais o seguro social servem apenas para pagar o hospital e a comida. Minha única distração diária é ler este jornal, que é comprado para mim de favor pela enfermeira White, que tem pena de mim. Eu não quero que você vire isso. Você não pode deixar que tenham pena de você, não pode virar um perdedor.

O silêncio é mortal. Eu olho para o chão, tentando me encontrar ali, nas ranhuras do piso. E então digo:

- Meio tarde para isso...

O velho me olha de uma forma estranha, como se quisesse se aproximar. Ele quase começa a levantar um braço, mas para imediatamente. E então diz:

- Saia daqui, Muhammad. É muito melhor que você continue sem um pai do que ter a mim como pai. Vá embora, por favor.

- Escute...

- Não quero que meu filho me veja neste estado! Eu sempre estive em estados semelhantes!

- Você foi embora por orgulho, então!

- Não diga bobagens! Eu fui embora para salvar a sua mãe. Para salvar você! Não entende? Eu fui embora para que pudessem viver. Para que você se tornasse alguém, longe de mim. E agora vá embora! Não quero saber o que está fazendo e como veio até aqui com uma arma, não quero saber mesmo! Mas não seja um perdedor! Não seja como eu! Agora, some daqui.

Dizendo isso, ele estica o braço e aperta o botão da campainha, chamando a enfermeira.

- Vá embora. A enfermeira White deve chegar em um minuto e viu pedir que ela chame os seguranças para tirá-lo daqui. - a voz era envergonhada, morta, chorosa e pequena.

Eu olho para ele pela última vez, me levanto e abro a porta para ir embora. Antes de eu sair, ele diz novamente:

- Não seja um perdedor.

Preferia não ter ouvido esta última frase. Desta vez a entonação com que disse isso me deu arrepios. Eu fecho a porta e caminho até as escadas.

Eu preciso matar este homem, né? OK. Alguém vai pagar por isso. Algum cachorro canceroso vai mesmo ter que pagar com isso.

Eu dou um bico na porta das escadas, escancarando-a. Não quero passar pela portaria novamente. Pego um rôdo encostado na parede, entre os lances de escada que levam para o térreo e começo a bater com ele na janela, até que o vidro se espatife. Continuo batendo com força, até que os cacos todos se soltem da moldura e além, até que o cabo de metal do rôdo se entorte. Então, subo na janela e pulo com força até o terreno baldio vizinho ao hospital.

Dou quatro ou cinco passos, sem saber o que fazer e a quem atingir com o meu ódio e então me sento no chão de terra batida, encostado na parede do hospital. Algum paciente está ouvindo Strange Fruit, de Billie Holiday. A música chega em volume bem baixo - e isso de algo forma me perturba. Dizem que quando se está nervoso é melhor que se pare e pense. Isso geralmente acontece comigo, mas neste momento foi um erro. Um grande erro. Quanto mais penso nessa história toda, mais a minha raiva aumenta. Preciso parar de pensar nisso, me mover, continuar andando. Mas faço o oposto: fico sentado ali por quinze, vinte minutos, pensando na merda. A maldita merda escura e fedorenta que é a minha vida, que é Nova York, que é esta profissão ridícula, a merda que representa e incorpora todos os filhos da puta do mundo na minha cabeça; Ted e sua idiotice megalômana; Andrea e sua escrotidão; Myrtes e seu sorriso cretino; Travis e seu bilhar fedendo a urina; a Sra. Williams e a mania de ter o mesmo nome que eu; filhos da puta, alguém vai ter que pagar por isso. Não estou passando por isso tudo a tôa. Alguém vai ter que pagar por isso.

Andrea. Andrea é o primeiro. Vou matar aquele cara de uma forma inédita, tenho que pensar nisso. Queria poder matá-lo mais de uma vez, sentir ele morrendo. Queria poder enfiar as balas com as mãos na testa dele, para sentir melhor sua vida de merda escorrendo pelo seu corpo. Me levanto decidido, os olhos fixos no nada, sem nem mesmo piscar. Começo a caminhar até o Arbuckle, quando ouço uma voz atrás de mim no terreno baldio:

- Negro! Ei, negro!

Quem é o filho da puta agora? OK, cara, não sei quem é você, mas você vai morrer.

Eu me volto e - bom, lá está ele. O baixinho magrelo. E é verdade sobre o terno branco. Que coisa mais escrota.

- O que você quer, seu merda? - eu levo a mão até o bolso, para sacar a pistola. Mas ele é mais rápido e em um segundo está com um Colt 45 na mão, apontando para mim.

- Calma, negro. - sua voz é aguda e irritante. - Calma, negro - ele repete, como quem está domando algum animal ou algo assim. Eu vou matar esse cara.

Ele ri e me pergunta:

- Sabe quem eu sou?

- Um cadáver?

Ele sorri e cospe no chão algum líquido verde-escuro.

- Não. Meu nome é Waters.

Waters...? Onde foi que ouvi esse nome? Claro, Waters. É o tal psicopata da Louisiana, o cara ex-Ku Klux Klan que o Ted contratou pra matar o tal negro do posto de gasolina de Jersey depois que eu recusei o serviço. Só pode ser esse merda. E agora entendo porque as palavras do Nero no bar dele me soaram estranhamente familiares: “saia da cidade, procure algum colega de trabalho do Texas”. Foi só um conselho inocente, claro, mas como ele tinha acabado de falar desse merda que está agora na minha frente, meu inconsciente deve ter me avisado. Droga, eu preciso ser mais esperto. Devia ter procurado saber quem era esse cara antes e por quê ele tava me procurando. Mas não tive tempo, eu... Por que tenho de ser sempre um perde...

Eu espanto estes pensamentos, mas eles escapam a tempo de vir de encontro à minha raiva e frustração, alimentando-as.

- Que foi, negro? - ele chega mais perto e pára a dois metros de mim. Ninguém vai ver nada neste terreno abandonado. Eu não posso morrer aqui.

- Sabe, eu tô de olho em você há um tempinho. Não queria realmente te encontrar de verdade, claro. Sou um cara higiênico e fico longe de animais da sua côr. Mas Andrea Porrazzo me deu uma boa grana para impedir que você saísse da cidade antes que ele e a sra. Rigazzalli tivessem tempo de armar este entretenimento pra você. Ele me falou do acordo, entende? Você tinha que matar o outro negro aí do hospital. Desconfio que você não fez isso, por isso tive que me mostrar. O que me incomoda e me deixa meio nervoso, porque a comunicação com os símios é sempre tortuosa.

Ele ri e diz:

- Bom, você sabe o que tem de fazer agora, não? Ou melhor, sabe o que eu tenho de fazer se você se recusar, né? Ou está difícil pensar?

Tim Roth
Tim Roth é Waters.

(Não perca amanhã o capítulo final de 145 Gramas).

145 Gramas - Capítulo 10

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Vendo minha boca aberta de surpresa, Andrea senta-se no sofá, ao lado de Myrtes, rindo.

- “Mad”, a essa altura, se ainda não percebeu, já deveria ter sacado que o mundo é dos espertos.

- Foi você... - eu digo a ele, começando a ligar os pontos. Algo dentro de mim começa a se irritar; aliás, eu já estava irritado, por causa da história do 201. Andrea abre os braços e abaixa a cabeça, como que em modesto reconhecimento:

- É, fui eu. Com ajuda da Myrtes, claro. - E então dá um beijo na ex-sra. Rigazzalli. - Sabe, é aquela história de unir o útil ao agradável. Myrtes queria se livrar do ex-marido para assumir o controle do clã Rigazzalli. Mas ela sabia que isso seria mais fácil se estivesse aliada a um homem, de preferência italiano, porque a máfia, você sabe, é cheia de dogmas. Eu, claro, queria me livrar do Ted; o “Payola” era um artefato do passado, “Mad”... não ia durar muito tempo tomando decisões estúpidas e contratando has-beens como você.

- Por isso você estava tão nervoso com o meu atraso naquele dia em que fui encontrar o Ted... Você queria que eu fizesse o serviço, né? - eu digo, começando a entender tudo. Continuo falando:

- Foi você quem entregou o Ted para os Rigazzalli, depois, claro, de escapulir de lá. E também quem deu meu telefone e nome para a simpática Myrtes, aqui. Vocês são dois filhos da puta.

- Ei, ei, “Mad”, “Mad”... Olha a língua, seu preto nojento, fracassado de uma merda, velho acabado e insuportável.

Levo a mão ao bolso e tiro a automática, apontando para a cabeça de Andrea. Esse negócio tá me deixando puto.

- Você não pode atirar, “Mad”. Seu dossiê tá na minha mão, lembra? Não aqui, na minha mão mesmo, como pode ver - e levanta as mãos espalmadas -; não é para entender da forma imbecilmente literal como entende tudo. O dossiê está com os homens do Rigazzalli, quer dizer, os homens da Myrtes, que agora são os nossos homens. Afinal, eu e Myrtes somos os novos, errr, “responsáveis” pelos maiores negócios da cidade. Seu merda. Atire e você vai ter toda a máfia e toda a polícia da costa leste atrás da sua carcaça escura como cachorros no cio.

Eu guardo a arma e respondo, me esforçando para me manter calmo:

- OK; Myrtes se vê livre do idiota do marido, graças a mim; você se vê livre do Ted; e, claro, o casalzinho de filhos da puta se une em grande estilo, para “mandar” em Nova York. Vocês dois são doentes, sabia? Doentes mentais. - reparo que Andrea fica irritado com isso. - Mas por que simplesmente não mandaram uns gorilas para me matar no meu apartamento ou me entregaram logo pro “Mambo” ou algo assim?

- Porque eu gosto de me divertir, “Mad” - diz Andrea. - E a Myrtes também gosta de umas risadas. Você é o comediante mais à mão no momento. E nos faz rir de graça. O que me lembra, aliás, do nosso negócio. Seu último serviço aqui na cidade, “Mad”. Explica pra ele, Myrtes.

A “sra. Rigazzalli”, que visivelmente está se divertindo muito com toda a palhaçada, fala:

- Eu já te expliquei, sr. Williams. Não matamos você e nem o entregamos à Polícia; em troca, você faz um último serviço por aqui e depois some de Nova York. Sem custos pra gente, claro. O nome está no envelope, sr. Williams. Adeus.

Ela e Andrea se levantam do sofá; Myrtes caminha até a porta e a abre, esperando que eu saia. Preciso me concentrar muito para não sacar da automática e matar os dois cahorros agora mesmo, com vários tecos na testa, mas não quero ser preso. É isso que repito mentalmente para mim mesmo: “Você não quer ser preso, ‘Mad’; não quer ser preso.”

Quando já estou no corredor, ela diz:

- Lembre-se, sr. Williams: se não cumprir este último serviço para nós, será entregue à polícia. Não importa como fará o serviço, mas o homem que mora neste endereço deve ser morto por você - ela diz o “por você” de forma esquisita, quase caindo na gargalhada. O que esses merdas estão achando tão engraçado?

Neste exato momento, acontece algo muito estranho. A expressão de Andrea muda e fica séria de uma forma bizarra, como se alguma ficha acabasse de cair na mente dele. Ele pensa por um segundo e diz:

- “Mad”, vamos lhe dar outra opção. Vamos dizer que você... acabe não matando o cara cujo endereço te passamos agora. Não sei, talvez você... não o mate, eh. - parecia continuar se divertindo com a coisa toda. - Nesse caso, você terá que procurar alguma pessoa comprovadamente próxima a você e matá-la. Simples assim. Mas tem que ser alguém próximo. E não tenta enganar a gente: tem alguns pares de olhos atrás de você nas ruas, a nosso serviço. De qualquer forma, “Mad”, você terá que matar mais uma pessoa antes de sair de Nova York. Mate o cara que lhe indicamos; se não fizer isso, terá de matar um amigo ou alguém próximo a você, o que será muito pior, acredito. Se não matar nem o cara indicado nem um amigo qualquer, então você é que morrerá; ou pelas nossas mãos, ou pelas da Polícia. Adeus, “Mad”. Aguardamos “notícias” suas, de uma forma ou de outra, eh.

Isso me faz lembrar do “baixinho magrelo de terno branco”, mas não pergunto nada. Preciso sair daqui antes que perca a cabeça e detone estes dois idiotas.

Pego o elevador e segundos depois estou saindo do edifício. Entro no Arbuckle e fico sentado por alguns minutos, tentando me acalmar. Filhos da puta. Não tenho motivo nenhum pra matar esse tal sujeito, seja ele quem for. E não vou matar nenhum amigo meu. Mas, se algum presunto não aparecer, como resultado das minhas ações, estou fudido. Vou ser morto pelos capangas do Rigazzalli, pela polícia; vou ser preso e mandado pra alguma cela cheia de psicopatas aidéticos. É, não tem jeito. Vou ter que matar uma última pessoa e então sumir de Nova York pra sempre.

Tiro o envelope do bolso. Minha mão treme enquanto rasgo o lacre. Um bilhete simples, escrito com a letra analfabeta do Andrea, sai lá de dentro. Nenhum nome. Apenas um endereço: Arizona Asylum, em Jersey. Porra, Jersey!? Odeio ir a Jersey. São cinco e meia da tarde. Merda, o Arizona Asylum deve ser um hospital. Até eu chegar a Jersey, vai estar fechado para visitas. Pelo celular, demoro poucos minutos para conseguir o número do tal asilo. Sim, fecham às seis da tarde. Sim, visitas só amanhã, a partir das dez da manhã.

Droga.

Bom, não vai adiantar ir a Jersey agora. E não vou me esforçar tentando entrar em um hospital à noite, escondido, para levar a cabo um serviço cujo resultado final eu ainda não compreendo. Não vou voltar pro apartamento; minhas coisas estão todas no Arbuckle. Finalmente, após rodar a esmo por Nova York por vários minutos, resolvo parar perto da subida da Ponte do Brooklyn. Desligo o carro, me certifico de que as portas estão trancadas e deito no banco dianteiro (minhas coisas ocupam o banco traseiro). Para minha surpresa, durmo perfeitamente.

Acordo com o sol na minha cara, refletido pelo retrovisor. O corpo todo doído e, merda, devem ser umas seis da manhã ainda. Ligo o Arbuckle e rodo novamente pela cidade. Que vida idiota.

Bom, não adianta mais esperar. Entro num bar qualquer e tomo meu café da manhã: ovos estrelados com fatias de bacon e uma xícara de café preto, seguido por uma Coca-Cola gelada. Enquanto como, tenho a estranha impressão de estar sendo vigiado. Olho em volta e não reconheço ninguém, mas o bar está bem cheio. Saio de lá, ligo o carro e finalmente sigo na direção de Nova Jersey.

Às nove e meia, depois de rodar por ruas esburacadas em busca de informações sobre o endereço, finalmente chego à porta do tal hospital. É uma casa enorme e bem antiga, aparentemente bem cuidada; mas nunca se sabe, com esses hospitais de Jersey. O letreiro onde se lê “Arizona Asylum” está imundo, mas o resto do prédio, por fora, parece bastante decente. Que diabos estou fazendo aqui? O que Myrtes e aquele filho da puta carcamano do Andrea armaram pra mim?

Dou uma última olhada para o prédio, pego a automática no porta-luvas, encaixo o silenciador, coloco novas balas e finalmente saio do carro. Neste exato momento, sinto como se alguém caminhasse sobre o meu túmulo. Tranco o carro e entro no jardim do prédio. Olho para o bilhete de Andrea mais uma vez, me certificando do número: “paciente do apartamento 230.”

Na recepção, uma moça estrábica, mas bastante bonita, sorri para mim.

- Sim, posso ajudá-lo?

- Sim... Eu... Eu soube que um velho amigo meu está internado aqui... Arizona Asylum, certo? Será que eu teria como visitá-lo?

- Perfeitamente, senhor. Pode me mostrar alguma identificação?

Tiro do bolso uma velha carteira de motorista falsa, preparada há anos pelo “Historinha”. A moça olha para o documento por alguns segundos e, sorrindo, diz:

- Tudo certo, sr. Peterson. Qual o nome do seu amigo?

- Ele me mandou uma carta, dizendo que está no quarto 230.

A moça sorri - um sorriso estranho. É esquisito como, após um certo tempo nesse ramo, a bondade estampada na cara de alguém parece alienígena para você.

- Perfeito, senhor. Ele vai adorar receber visitas. Sempre tão solitário. Basta pegar o elevador no fim do corredor, sr. Peterson, e então descer no segundo andar. O quarto 230 é o último, no fim do corredor, perto da janela.

Caminho até o elevador e, quando a recepcionista não está olhando, me apresso e sigo pelas escadas. Sempre prefiro usar as escadas, para olhar pelas janelas e ver o que há em volta ou nos pátios do prédio. Reconhecimento do lugar. Neste caso, nada mal: o quarto fica no segundo andar e as janelas das escadas são bastante grandes. Depois do serviço feito, saio do quarto 230, volto para as escadas e desço novamente até o primeiro andar. Aí, saio pelas janelas, que dão para um terreno baldio ao lado do hospital. Mole. É, mole, mas detesto fazer serviços que não entendo.

Saio no segundo andar e o corredor está quase vazio. Uma enfermeira está entrando em um outro quarto, na extremidade oposta, enquanto um faxineiro lava um pedaço do piso de eucatex branco vagabundo.Estou mesmo com sorte: o quarto 230 fica logo ao lado da porta que dá para as escadas.

Escuto por um instante. Nenhum ruído lá dentro.

Giro a maçaneta, bem lentamente. A porta se abre e olho pela fresta. Um quarto arejado, bastante claro. Apenas um paciente. Bom, pelo menos estou com sorte hoje. Se fosse um quarto coletivo, tudo seria mais complicado. Abro a porta e entro. O paciente está deitado na cama, lendo um jornal. Não consigo ver seu rosto. Quando fecho a porta, ele abaixa o jornal e me olha, inquieto:

- Sim? Quem é você?

Quando vejo seu rosto, vejp que não estou com tanta sorte assim. Merda. Não bastasse ser um paciente de hospital, ele é a) um velho de quase 70 anos, pelo visto e b) negro.

Andrea, seu filho da puta. Então, essa era a sacanagem. Você sabe que eu não mato negros.

Os olhos do homem ficam alarmados e ele, com algum esforço, se estica para apertar o botão que chama a enfermeira. Eu saco a automática e aponto para ele. Ia atirar, mas algo me impede. Vendo a arma, ele se imobiliza. Eu digo:

- Melhor não chamar ninguém.

Ele volta a se encostar no travesseiro. Neste momento, algo apita na minha cabeça. Tem mais coisa nessa história. Arrasto uma cadeira de metal até a porta, bloqueando-a, e me sento em uma segunda cadeira, ao lado da cama. Olho para o velho, que está com uma estranha expressão que é uma mescla de extremo pavor e... o quê mais? Não consigo definir.

Com a arma ainda apontada para ele, eu digo:

- Fique quieto. Qual é o seu nome?

Ele me olha e balbucia:

- Que-quem é você? Eu... Eu acho...

- Eu faço as perguntas aqui. Qual é o seu nome?

E então o velho me encara de forma extremamente espantada. Não é mais medo de morrer ou pavor. É algo diferente... um espanto.

Vejo que há uma ficha médica sobre uma mesa encostada na parede. Me estico para pegá-la. Ainda apontando a arma e com um dos olhos no velho, começo a lê-la.

Sabe, há momentos na sua vida que... Que seu coração parece dar uma volta sobre os calcanhares e se esconder para sempre no seu cu. Este é um deles. Não consigo ler a ficha médica. Meus olhos ficam paralisados, fixos nas letras datilografadas que mostram o nome do paciente. Até hoje lembro daquelas letras, gravadas a fogo nos meus olhos. O nome é Mitchell Carruthers Williams.

Quando estou transfixado pelo nome, as letras passeando pelos meus olhos arregalados, um fiapo de voz é ouvido no quarto:

- É... É você, não é?... É Muhammad, não é? Você é Muhammad.

Faço um esforço inconcebível para levantar a cabeça do papel nas minhas mãos e encara o velho. Ele está com os olhos arregalados, um misto de vergonha, medo, espanto, ódio, raiva e incompreensão dançam nas órbitas apagadas.

- É Muhammad. E então, após esses anos todos...

Ele abaixa a cabeça, procurando uma explicação no lençol verde que cobre seu corpo. Volta a me encarar, espanto e ódio e surpresa e confusão:

- É isso o que veio trazer de presente para seu próprio pai? 145 gramas de chumbo na minha cabeça?

Morgan Freeman
Morgan Freeman é Mitchell Carruthers Williams.

145 Gramas - Capítulo 9

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Myrtes. Myrtes Rigazzalli quer que eu trabalhe pra ela. Isso tem a palavra “armadilha” soletrada em neon gigante por todos os lados, mas... o que ela disse mesmo? Que a polícia não tem meu nome ou descrição ainda. Isso explica porque “Mambo” veio aqui me dar um susto e não me levou preso (não que ele já não soubesse qual é a minha “opção de carreira”; ele sempre soube, mas sempre fechou o olho pra isso, por falta de provas).

O que me faz pensar: como ela tem meu nome e, principalmente, o número do telefone da minha casa?! É como dizem, a curiosidade matou o gato. Finalmente volto a sair e trancar a porta, após me certificar de que não havia deixado nada importante para trás. É isso. Adeus, velho apartamento. Adeus, vizinhos malucos. Adeus, Sra. Williams. Estou partindo para...

Falando no diabo...; mal faço essa despedida mental, a Sra. Williams mais uma vez aparece na porta de seu apartamento. Dessa vez ela diz:

- Vai ficar muito tempo fora. Sr. Williams?

- Ahn?... Err... Não sei dizer, sra. Williams, mas é provável que não. Quer dizer, talvez eu demore algumas semanas.

- Semanas? É uma pena...

E me lança um olhar bem estranho, como se contasse com a minha presença para algo qualquer. Finalmente, fala:

- Já soube do Mark?

- Mark? Que Mark?

- Mark Johnson. O “menino do 201”.

Isso me chama a atenção.

- Não, não soube... O que houve?

- Bem, a sra. Johnson, como eu previa, não denunciou o grotesco do marido dela à Polícia... Manteve a história sobre ter caído da escada. Ela ainda está no hospital e não duvido nada que volte para casa, mesmo tendo que dividir o teto, a mesa e a cama com um monstro. Humpf! Algumas mulheres são estúpidas assim, o senhor sabe, sr. Williams.

- ...

- Ela...

- Não, peraí. Desculpe, sra. Williams. A senhora iria me contar algo sobre o menino. O que aconteceu?

- Mark, sim... Foi horrível, sabe?

- O que aconteceu, sra. Williams??

- Foi há poucas horas atrás, enquanto o sr. estava fora. Ouvi gritos horríveis e saí ao corredor. Desta vez os gritos foram tão terríveis que até mesmo o inútil do Petey, aquele vagabundo do quarto andar que fica o dia inteiro fumando marijuana e ouvindo aquelas horríveis músicas jamaicanas ou algo assim; até mesmo ele desceu até o segundo andar para saber o que estava havendo.

- E o que estava havendo? - maldita mulher, não pode falar logo?, penso.

- Ora, sr. Williams, o que poderia estar havendo? O de sempre, só que pior desta vez.

Ela diz isso como uma indireta, como se somente eu não soubesse o que ocorria no 201. Eu sempre soube, mas era a última pessoa do prédio que queria complicações com a polícia. Mas essa história começa a deixar de ser simplesmente um gosto ruim na minha boca e passa a me deixar um tanto irritado. Sabe, é difícil que eu fique realmente irritado. Preciso manter a cabeça fria, é pré-requisito na minha profissão. Mas é estranho como o cara do 201 está começando a me deixar irritado. A sra. Willliams continua:

- Bem, ele finalmente acordou da bebedeira e saiu de casa. O sr. Johnson, não o pequeno Mark. Voltou logo depois, com um pacote de papel contendo o que tenho certeza que era umas três garrafas de uísque dos mais vagabundos. Pouco tempo depois, os gritos começaram. O Petey, do 401, desceu até lá e bateu na porta. Ele parecia assustado e inseguro ao fazer isso, mas a essa altura já tinha mais gente no corredor. Finalmente, o sr. Johnson abriu a porta. Ele estava completamente bêbado, tão chumbado que caiu sentado assim que Petey olhou para ele. Foi nesse momento que eu cheguei ao segundo andar e me aproximei da porta do 201. Petey estava lá, sem entrar, claro, porque ele não é bobo de se arriscar a uma acusação de imnvasão de domicílio. É o que eu sempre digo, famílias brancas não deveriam vir morar em prédios de negros. Sempre dá problema, porque as pessoas ficam...

- Sra. Williams, por favor, o que houve com o menino?

- Bem, ele está no hospital agora, no mesmo andar que a mãe. O sr. Johnson bateu nele com algo que talvez fosse uma garrafa ou algo assim. Eu não sei, não quis olhar. Foi Petey quem, afinal, ao ver o menino, entrou no apartamento, pegou-o no colo desceu até o meu, aqui no 101. O braço direito dele estava quebrado em duas partes; havia várias luxações horríveis e, pior: ele estava desmaiado, com cacos de vidro sobre um horrível ferimento na cabeça. Chamamos a ambulância e acho que o menino está com traumatismo craniano ou algo assim. Ah, e havia uma horrível queimadura nas pernas. Parece que ele, Mark, estava fervendo água no fogão para fazer alguma coisa para comer, já que havia ficado o dia inteiro sem comer, pobre menino - e o sr. Johnson, durante o ataque, pegou a panela do fogo e jogou a água nas pernas dele. Foi aí que...

Mas eu já não estou mais ouvindo. Sabe, preciso contar até dez, como nos filmes, pensando em algo bem nulo, como uma parede branca. Esse sujeito é um porco. Eu preciso me acalmar. Somente um pensamento cruza a minha cabeça: “graças a deus estou indo embora daqui; se ficasse mais algum tempo neste prédio, acabaria fazendo alguma bobagem”.

Ainda extremamente irritado, balbucio algo para a sra. Williams e saio do prédio. Caminho até o Arbuckle. Na minha mão, está o papel com o endereço de Myrtes Rigazzalli. Sabe, não sei se é bom ou ruim que eu vá visitar aquela mulher irritado do jeito que estou. Ligo o carro. A automática, claro, está na minha jaqueta. Faço o possível para me acalmar, olhando para os outros carros, os sinais de trânsito e as pessoas nas calçadas. Alguns longos minutos depois, estou estacionando o carro em frente ao apartamento.

Desço e entro na portaria, levando apenas a arma e as chaves do Arbuckle. Poderia ter parado o carro na viela, mas todas as minhas coisas estão dentro dele. Não posso me arriscar a que seja roubado com tudo dentro. Melhor deixá-lo à vista do porteiro que, aliás, a essa altura, já me olha com curiosidade, como se estivesse forçando a vista para se lembrar onde havia me visto antes. É incrível como um uniforme faz diferença - ou a ausência dele.

Me aproximo da mesa e digo:

- O apartamento de Myrtes Rigazzalli.

O velho diz:

- Ela está esperando o senhor?

Olho para ele, sem dizer nada. Imagino que ainda devo estar com uma expressão irritada, porque o velho imediatamente leva a mão até o interfone.

Minutos depois, estou batendo na porta da mulher. É ela mesma quem me atende, toda cheia de si. Desta vez, não há nenhum capanga no apartamento. Ao menos, não na sala. Ela me recebe sem falar nada. Também fico em silêncio, esperando que ela fale. Me sento em uma poltrona ao lado da porta, enquanto ela toma a ponta do sofá à minha esquerda.

- Sr. Muhammad Williams. “Mad” Williams. - ela diz, me olhando nos olhos. Parecia se divertir.

- O que quer, sra. Rigazzalli?

- Direto ao ponto, você prefere? Bom, como eu disse no telefone, quero que faça um serviço pra mim. E pode me chamar de Myrtes.

- Não entendo, sra. Rigazzalli. Que tipo de serviço?

Ela me olha, como se estivesse intrigada com algo, e então diz:

- O seu tipo de serviço. Que outro poderia ser?

Eu abro a boca para falar algo, mas ela me interrompe:

- Sabe, sr. Williams, o senhor matou o meu marido. Em troca, é justo que mate alguém para mim.

- Não parece estar profundamente enviuvada... sra. Rigazzalli.

Ela me olha, restos de ódio escapando pelas pupilas:

- Cale a boca, sr. Williams. Sabe, o senhor me fez um favor. Jock sempre havia sido um idiota. Estaávamos separados há alguns anos exatamente por causa disso. Jock era um idiota. Uma criança grande, criada numa maldita mansão com capangas e paparicado pelo velho Rigazzalli, que o fez se sentir como o herdeiro de um grande castelo ou merda parecida. Jock era imaturo, mimado, auto-indulgente. Um bebê chorão. Um bebê cruel e cheio de vontades, mas um bebê. E seus irmãos já morreram. Sr. Williams, o senhor apressou as coisas para mim. Não sei se sabe, mas eu sou a pessoa mais lógica e indicada para assumir os negócios dos Rigazzalli, agora. Dependia única e exclusivamente do tempo, da sorte... e o senhor fez isso por mim, antes do que eu esperava. Obrigada, sr. Williams.

Para, abre a bolsa ao seu lado, retira uma cigarreira de prata e acende um cigarro mentolado, com cheiro horroroso. Resolvo entrar no jogo irônico dela:

- Cigarros mentolados dão câncer, sabia?

- Sr. Williams, o senhor fica péssimo tentando ser cínico. Deixe isso para mim, está bem? Como eu dizia, foi um grande favor. Mas não uma surpresa, o senhor entende. Quero dizer, isso o senhor ainda não entende.

- Do que está falando?

- Sabe, Ted “Payola” era um idiota... um idiota bem útil.

- ...

- Mas, veja: agora comando boa parte dos negócios de Nova York. Mas, mesmo assim, sr. Williams, Jock Rigazzalli era meu marido. Se devo me impôr como a nova cabeça do clã, devo dar exemplos. Nenhum Rigazzalli morre impunemente.

É isso. É mesmo uma armadilha. Sem perceber, levo a mão até a arma, na jaqueta, bem devagar.

- Não seja tolo, sr. Williams. Eu não quero matá-lo. Relaxe. O seu pagamento não será com a vida. Em troca da morte do meu marido, terá que matar uma pessoa para mim.

E então tira um envelope do bolso, jogando-o no meu colo.

- O endereço está aí dentro. Não preciso dizer, claro, que não ganhará nada por isso. Não fará isso por dinheiro; fará porque me deve isso. E por mais um motivo. Tenho um envelope contendo sua descrição, nome, telefone e número da conta bancária, guardado por uma pessoa de minha confiança na Mansão Rigazzalli. Se se recusar ou ousar me atacar aqui, este envelope irá direto para a Polícia. Já deixei um testemunho pessoal por escrito dentro dele, também. Se não matar este homem, eu o entregarei à Polícia. Se matá-lo, tudo estará quites entre nós.

Pego o envelope com o endereço do pobre diabo e guardo no bolso da jaqueta. Olho para Myrtes e falo:

- Sra. Rigazzalli... sabe, a máfia não costuma ver chefes do sexo feminino com bons olhos. Sugiro que tenha cuidado. Ah, por falar em cuidado: como conseguiu meu telefone e os outros dados?

Ela me olha, quase sorrindo, com os grandes olhos negros brilhando:

- A resposta para a sua “preocupação” e para a sua pergunta é uma só, sr. Williams. Está prestes a sair por aquela porta.

E me aponta a porta que leva para o quarto, onde “encontrei” Jock Rigazzalli naquele dia terrível. A porta se abre e dela sai um homem sorridente, que caminha até o sofá.

Não.

Não é possível.

É Andrea Porrazzo!!

145 Gramas - Capítulo 8

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Chego mesmo a pensar em girar a maçaneta, abrir a porta e pular do carro em movimento, mas isso seria inacreditavelmente estúpido. Fico mais tranquilo quando percebo que o carro está voltando, tomando a direção do meu prédio, após rodar a esmo por alguns quarteirões. “Mambo” me dá um estranho tapinha nas costas e fala:

- Felizmente, nem todo mundo da polícia simpatizava com Rigazzalli, sabe? Quer dizer, ninguém simpatizava com ele, simpatizava com o que ele significava, se é que você me entende. Eu mesmo não tinha nenhum problema com ele. Mas também não chegava a simpatizar. De qualquer forma, foi uma decisão incrivelmente estúpida do Ted. Bom, ele vai ter bastante tempo para refletir sobre o que fez e juntar os pedaços de sua vida, ah, ah, ah! Aaah...

- Oh, oh! - o motorista ri, parecendo um urso mecânico.

Finalmente, o carro pára em frente ao meu prédio. Giro a maçaneta e abro a porta. “Mambo” segura meu ombro e diz:

- Toma cuidado, hein? Esse bairro tá ficando perigoso. E o Natal é um ótimo motivo pra visitar parentes, seus pais lá em New Orleans ou algo assim.

- Meus pais estão mortos - digo, friamente.

Saio do carro e, quando já estou na calçada, “Mambo” mete a cabeça para fora da janela, enquanto o carro da polícia começa a andar. Ele grita, gargalhando:

- Isso quer dizer que você começou cedo, hein, “Mad”? Ah, ah!

Filho da puta. Não sei o que ele queria com isso tudo. Me assustar, claro. Mas acho que o perigo não vem dele, mas de outros policiais. Merda, eu já achava que vinha vingança da grossa por parte dos italianos, mas não tinha pensado nos caras que ele tinha no bolso, na folha de pagamento. Talvez seja a hora de ir embora de Nova York. Droga, eu não queria isso. E vou fazer o quê?

Bom, são quase meia-noite. Vou dormir e amanhã penso nisso. As cervejas já estão quentes, mesmo - e perdi a vontade de beber. Filho da puta do “Mambo”. Antes de subir, descubro uma parte da lona do Arbuckle, abro a porta da esquerda, estico o corpo para dentro e pego a automática no porta-luvas. Olho em volta e escondo a arma no bolso da jaqueta. Fecho o carro e subo as escadas.

A noite passa surpreendentemente tranquila. Nada de sonhos ou pesadelos, mas o sono propriamente dito não foi reconfortante. Sei que, com exceção do “Mambo”, ninguém sabe onde eu moro. E a maioria dos que sabem não têm a menor idéia da minha “profissão”. Mesmo assim, é difícil pregar o olho.

Quando abro, já é dia. Umas dez da manhã, pelo jeito. Dormi muito, mas tenho a impressão de ter acordado quinze minutos depois de ter ido deitar. É, tá na hora de fazer alguma coisa. Mas o quê? Depois de lavar o rosto, caminho até a cozinha e frito uns ovos com bacon. Me sento pra comer e finalmente provo um pouco das cervejas. Bom. Bom pra pôr as idéias em ordem. Normalmente não bebo de manhã, mas normalmente as manhãs também não são assim.

Estou lavando os pratos e dando o último gole naquela lata de cerveja quando escuto. Meu peito parece saltar até acima da cabeça: sirenes. Estão vindo pra cá. Sim, puta que pariu. Abaixo as persianas e olho pela fresta. As sirenes se aproximam. Mas, para minha surpresa, não são um ou dois carros da polícia que param na frente do prédio: é uma ambulância. O que está havendo?

Imediatamente, escuto vozes no corredor. Alguém sobe rapidamente as escadas. Vou até a porta e colo o ouvido na madeira. Escuto alguém dizendo:

- Onde? Onde é?

E então a voz inconfundível da Sra. Williams:

- Ali. No final do corredor. É no 201.

201? O que está havendo? Cinco minutos depois, uma balbúrdia de passos desce as escadas. Volto para a janela e vejo quatro enfermeiros saírem do edifício com uma maca. Forço a vista e vejo que é a mulher do 201. Mas ela... que posição estranha.

Na hora do almoço, quando saio para ir ao Nero’s, fico sabendo de tudo pela própria Sra. Williams. Aparentemente, o cara do 201 quebrou as duas pernas da esposa com um taco de beisebol. Nenhum vizinho quis prestar queixa. Ninguém viu ou ouviu nada. O tal cara foi encontrado inconsciente, bêbado, caído no sofá. A esposa disse que quebrou as pernas ao cair de uma escada dobrável, enquanto limpava o teto. Duvido que ela dê queixa. É quando eu me lembro: e o menino? O filho deles. Já estou saindo do prédio e então dou meia volta e pergunto pra Sra. Williams, que entrava em seu apartamento.

- Sra. Williams... e o menino?

- Menino?

- É, o do 201.

Ela me olha, curiosa.

- Está interessado, sr. Williams?

Fico sem graça e digo:

- Ele está no apartamento?

- Está. Entrei com os enfermeiros quando foram buscar a sra. Johnson - a sra. do 201, você sabe. Foi ela mesma quem ligou para a ambulância, mas esperou meia-hora, caída no chão, com dores horríveis nas duas pernas, até que o monstro do marido caísse de bêbado no sofá. Então se arrastou até o telefone e chamou o hospital. Detalhe que ela não ligou pro 911, ligou pro hospital. Ela não queria que a polícia viesse também. E duvido que vá prestar queixa.

- Sim, mas e o menino?

- Você não me deixa terminar. Pois então, quando entrei com os enfermeiros, o menino estava no seu quarto, deitado embaixo da cama, os olhos paralisados, como que em transe. Os braços dele estavam todos rôxos e acho que vi uma queimadura nas costas dele quando o tiramos de lá. Ele não quis vir pro meu apartamento e confesso que me espantei em como os enfermeiros não deram muita atenção ao caso. Eles são brancos, afinal.

- É... são brancos, mas também moram aqui, sra. Williams. - e com os braços mostro o corredor do prédio.

Ela balança a cabeça, concordando. E fala:

- É... alguns são brancos e outros são pretos, mas alguns brancos são mais brancos do que os outros brancos.

E então vai para seu apartamento. Eu entro no Arbuckle e em dez minutos estou passando pela porta do escritório do Ted. A porta da frente do prédio está com aquela faixa preta e amarela de interdição que a polícia usa. Na janela, vejo um policial de guarda lá dentro. Merda, não sobrou ninguém? E a secretária, Janice? Ela era mãe solteira, nem sabia muito bem em que o Ted estava metido. Coitada da mulher. Pouco depois, paro em frente ao Nero’s.

Nero me recebe muito bem, como sempre, mas percebo que fica mais ao longe, me olhando com ansiedade. Quando termino de comer meu chilli, ele vem até a mesa (dessa vez não fiquei no balcão) e se senta na cadeira oposta à minha.

- Muhammad, aquele cara veio aqui hoje de novo procurar você.

- Cara?... Que cara? O tal baixinho magrelo?

Nero faz que sim com a cabeça.

Eu penso por alguns segundos. Quem é esse cara? Não pode ser da quadrilha dos Rigazzalli, por causa das roupas. E nem é o “Mambo”. Ele é baixinho, mas não é magrelo e nem anda por aí com ternos brancos. E não iria me procurar aqui, não é o estilo dele.

Quem é esse cara?

Nero interrompe meus pensamentos:

- Muhammad, você tem parentes ou amigos fora de Nova York, que possa visitar para o Natal?

Me surpreendo com a pergunta. Antes que eu possa responder, ele completa:

- Se eu fosse você, dava um tempo fora da cidade. Um bom e longo tempo, sabe? Na casa de algum primo em New Orleans, um colega de trabalho no Texas, qualquer coisa. E nem pensa em ir pra Jersey. Jersey é perto demais.

Nero nunca havia falado assim, de forma tão... clara, antes. Mas sei o que ele quer. Ele quer o meu bem. Mas, porra, por que todo mundo acha que tenho parentes em New Orleans? Eu nunca pisei em New Orleans! Mas não é isso que chama minha atenção... É a parte sobre o “colega de trabalho do Texas”. Nero está chutando, claro, mas onde foi que ouvi algo parecido antes?...

Agradeço a Nero e me levanto. Para minha surpresa, não deixa que eu pague pelo almoço:

- Não, nada disso. Esse é por minha conta, Muhammad. Se cuide.

Quando estou passando pela porta do restaurante, ele grita:

- E me mande um cartão, mesmo que sem remetente ou endereço!

Bom e velho Nero. Taí, nunca pensei que fosse sentir falta desse cara.

Mas ele tá certo. Preciso cair fora daqui. O bando dos Rigazzalli; se bobear, a máfia russa; até mesmo o “Mambo” e agora esse tal baixinho magrelo de terno branco. Quem é esse filho da puta? Bom, o Nero não sabe onde eu moro. E, de qualquer forma, não falaria. E, também de qualquer forma, estou saltando fora agora mesmo. Dinheiro não vai ser problema por alguns meses. O Ted normalmente deposita a grana na minha conta mesmo antes de eu fazer o serviço, porque ele sempre confiou... peraí. A minha conta. O número com certeza está nos arquivos do Ted. Porra!

Faço um retorno com o Arbuckle e rumo pra casa do “Historinha”. Eu preciso sacar essa grana logo e fechar essa conta. Mas não sou maluco de ir ao banco, assim, com a minha pinta. A polícia pode estar de olho em todos os lugares que constam do arquivo do Ted. O “Historinha” é esperto e tem Internet. Eu odeio computadores.

Meia hora depois, tô batendo na porta dele. Ele me recebe, alegre e fanho como sempre.

Spike Lee
Spike Lee é Matt “Historinha” Smith V

- E aí, “Mad”? Bom, pelo menos já sei que as roupas e o cartão da tele funcionaram. - diz, com certa ironia. É quando olho em volta: seu apartamento está vazio, tomado por caixas de papelão. A única coisa fora da caixa é o computador, sobre uma mesa. Ele explica:

- É, cara. Tô indo nessa. Sabe, eu já sabia que a morte do figurão dos italianos ia dar em merda. Em meia hora o Paul “Pirulito” vai parar lá em baixo com o furgão dele e aí vai me dar uma carona até Boston. Nova vida por lá, cara. Já guardei tudo. Mas, como pode ver, deixei pra embalar meu G4 por último, porque eu sabia que você ia dar uma última passada aqui hoje. Pelo menos, era o que eu desconfiava. E acertei - como sempre.

“Historinha” é assim mesmo: meio metido a besta, mas o cara é um gênio. E logo percebeu que o caminho mais fácil para um preto geek é criar sua própria Nasdaq pessoal. O nerd e hacker que todos os criminosos adoram. Ele nasceu Matt Smith V (“quinto”). O “quinto” é porque é o quarto filho do senhor Matthew Smith, o “primeiro”. Um velho maluco, que deu o mesmo nome para os quatro filhos: o nome dele. “Historinha” era o quinto.

Em questão de segundos ele acessa a minha conta e transfere toda a grana (olha só, até que eu estou em melhor situação do que eu pensava) para uma segunda conta, sem registro nos arquivos do Ted. Depois, ele encerra a minha conta. OK, nada demais, mas com ele é bem mais rápido. E “Historinha”, claro, ainda vai mais longe. Ele explica:

- Olha só, já tomei umas providências. Sabia que, se você fosse esperto, ia zarpar fora dessa cidade. E é uma merda de cidade, se você pensar bem. Eu, por exemplo, finalmente vou tentar algo no MIT, lá em Boston. Claro, não vou poder abrir o jogo em relação ao meu currículo como um todo, eh, eh, mas vai ser do caralho, cara. Um dia desses você ainda me vê na TV, cara, tô te dizendo.

- É, mas corre daqui, se não quiser aparecer no noticiário policial - ou nos avisos funerários.

- Eh, eh, boa essa, cara! Mas tá tranquilo. “Historinha” é “Historinha” e tu sabe que comigo não tem vacilo. Já tá todo o esquema armado, real e virtualmente. Não tem o que dar errado. E já armei um quase esquema pra você, também. Sabe qual é, né, a gente sempre foi amigo. E eu sempre vou arranjar um jeito de dar uma força prum camarada preto filho da puta que nem eu. Então, saca só qual é: tu dá um tempo de uma semana por aí, mas sai de Nova York. Não tô nem falando da cidade, cara, sai do estado mesmo. Dá umas voltas pelas estradas, pega o - qual é o nome daquele teu Mustang? Knuckles?

- Arbuckle.

- Pega o Arbuckle e sai por aí redescobrindo a América, cara. Land of the bribe, home of the rapes. Dá uns giros, de bobeira, tipo um Neal Cassady preto, de mansinho. Aí, quando for mais ou menos daqui a uma semana (quer dizer, no mínimo mais; menos, não) tu vai lá pro Colorado e...

- Colorado?? Mas que...

- É, o Colorado, cara! Neve e o caralho. Coníferas, muitas coníferas. Tu vai se intoxicar de ar puro depois de respirar o peido de concreto aqui da Maçã. Vai viajar e o caralho com o ar. Mas então, tu chega no Colorado, nessa cidade aqui, ó:

E me passa um pequeno papel impresso com o endereço de uma caixa postal em uma cidadezinha no Colorado. Eu me espanto:

- “Pagosa Springs”? Condado de “Archuleta”? Que papo é esse, “Historinha”?

- Então, cara, Archuleta. É um pedaço de nada no sul do Colorado. Em uma semana, vai pra Archuleta, entra nessa biboca de cidade, Pagosa Springs, e aí vai nessa caixa postal que eu abri lá pela Internet com o teu nome e tudo. Eu uma semana, vai chegar lá a tua nova carteira de motorista, com teu novo nome e novo número de seguro social.

- Você tá maluco, “Historinha”.

- Pode ser, cara, mas pensa bem nisso. Você vai deixar de ser Muhammad Williams e vai virar Papa Williams. Nova vida; mesmo cara.

- “Papa”? “Papa”??

- Isso, cara. Tipo Papa Ghede, sabe o que eu tô falando? Vudu, “Mad”, Vudu. Nada de Muhammad. O monoteísmo é a religião do opressor, cara. Vá pelo politeísmo e siga o caminho do escorpião, o que pode dar errado?

- Tá bom, “Historinha”, vou pensar nisso, cara. Mas valeu por toda a ajuda e boa sorte, boa viagem!

Eu não aguentava mais aquela falação incessante. “Historinha” deveria ser rapper. Porra.

Mas é um cara legal e um bom amigo. Eu o ajudo a embalar o Mac dele e a descer tudo pro furgão do Paul “Pirulito”, que já estava lá na porta. O “Pirulito” é um cara muito estranho, branquelo judeu do Brooklyn que age como drag queen nos clubs caros à noite, mas sempre foi um cara gente fina e bom informante. Agora ele trabalha na Universal Airlines. Não tem porque ele sair de Nova York, a ligação dele com o Ted sempre foi muito periférica, mas é legal que esteja ajudando o “Historinha”.

Ver o furgão partir me dá uma sensação esquisita, de que vou ficar por último para apagar a luz. Bom, nada disso. Hoje à noite estou indo embora. Dinheiro bem guardado em uma nova conta, ninguém pra deixar pra trás, tudo tranquilo. Antes de voltar pra casa, paro em um posto de gasolina e encho o tanque do Arbuckle. Vou pra qualquer lugar e, daqui a uma semana, talvez até mesmo use a identidade arranjada pelo “Historinha”.

Archuleta. Pff.

Do posto rumo direto pra casa. São quase quatro horas. Entro no apartamento e em pouco mais de uma hora termino de embalar tudo. Não tenho muita coisa, porque nunca parei muito em lugar algum da cidade. Algumas roupas, a automática, documentos, cartão do banco, fotos dos meus pais, livros e revistas, meus CDs, essas coisas. A TV, a geladeira e os móveis são do apartamento, sem problema com isso. Depois cancelo o contrato de aluguel por carta ou procuração.

As quatro caixas de papelão e as duas malas cabem facilmente no banco de trás do Arbuckle. Quando levo a última caixa, a Sra. Williams aparece na porta do seu apartamento, no térreo.

- Indo viajar, sr. Williams?

- Err... sim, Sra. Williams. Florida. Vou passar o Natal na casa da minha irmã.

- Quem visse, ia dizer que está se mudando. Quanta caixa.

- É, eu... sou bem apegado às minhas coisas, sabe?

Subo as escadas de dois em dois degraus, rapidamente. Dou uma última olhada no apartamento. É, parece que não tem mais nada. Estou quase trancando a porta quando o telefone toca lá dentro. Hesito por um segundo ou dois, então resolvo atender. Talvez seja o “Historinha” ou alguém querendo me dar uma força.

É o que sempre digo: otimismo é uma merda. OK, prestem atenção agora, porque é quando tudo começa a ficar realmente estranho. Eu atendo o telefone e digo “alô?”. Uma voz do outro lado, uma voz de mulher, diz:

- É o sr. Williams? Sr. Muhammad Williams? Aqui é Myrtes. Myrtes Rigazzali - como ela tem meu telefone?? - Espero que esteja tudo bem com o senhor. Sr. Williams, preciso que venha me ver. Agora. Neste exato momento. Eu tenho um serviço para o senhor. Quero contratá-lo. E acho melhor que o senhor venha, porque, entende? - até agora a Polícia ainda não tem seu nome ou descrição. Mas terá, se não aparecer. Estou esperando o senhor. Ah, e obrigada: meu telefone está sem nenhuma linha cruzada agora, como o senhor pode perceber. Venha neste momento para cá. Tenho certeza de que vai gostar do trabalho.

E desliga.

145 Gramas - Capítulo 7

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O telefone toca e ninguém atende do outro lado. Bom, Ted deve ter descido pra tomar umas cervejas ou algo assim. Meu coração finalmente começa a desacelerar, junto com o Arbuckle. Apesar das palavras, é muito mais fácil escrever sobre essas coisas do que fazê-las. Bom, grande frase. “Mais fácil escrever do que fazer”. Isso deve ser óbvio. Mas é uma verdade bem grande, porque pra mim fica cada vez mais difícil lidar com essas coisas, do ponto de vista físico.

Eu tô ficando velho - mas acho que já falei isso.

Bom, quer saber? Normalmente eu ligo pro Ted dando as boas novas sempre que termino um serviço, mas se o cara tá ocupado eu vou é pra casa tomar um banho. Não, melhor ainda: vou comprar umas cervejas antes também e então vou pra casa. Tô precisando de uns goles mesmo.

Cara, nem acredito ainda que foi tudo certo.

Mas então me lembro quem morreu. Jock Rigazzalli. Alto escalão da Máfia. Quando penso nisso, soa tão estranho que parece que foi feito por outra pessoa. Bom, o Ted agora que se vire. Vai vir merda da grossa pra cima dele. E ele tá sendo muito otimista se acha que vai ficar com a parte do Rigazzalli na cidade na boa. Com ele morto, a Máfia russa vai vir com tudo pra cima da área dele. Ted vai ter que se virar. Eu disse a ele que não queria me meter na confusão que ia vir com a morte do Rigazzalli.

Paro o Arbuckle no Nero's e desço para comprar umas cervejas. Enquanto me atende, o velho Nero me olha de forma estranha, como quem observa um acidente de carro. Essa expressão esquisita fica uns dois segundos no rosto dele, e então ele pergunta:

- Tá tudo bem, Muhammad?

- Tá, claro. - digo, meio intrigado.

Não resisto e pergunto:

- Por quê?

Nero me observa, como quem mede as palavras antes de falar:

- Teve um cara estranho procurando por você aqui.

- Por mim? Um cara... estranho? Estranho como?

- Esquisito. Sei lá. Era um baixinho magrelo, de voz anasalada e olhar de psicopata. É, era isso que ele tinha... um olhar de psicopata - a voz de Nero baixou lentamente, como quem, aos poucos, se lembra de algo.

Isso é estranho. Um baixinho com cara de maluco? Não me lembro de ninguém assim. Droga, deve ser alguém do Rigazzalli. No mínimo já sacaram tudo e tão me procurando. Mas então o Ted e o Andrea também tão em perigo, porque se me sacaram devem ter sacado que eu trabalho pra eles. Pergunto, nervoso:

- Um baixinho, como? De terno preto, cara de italiano?

- Não, ele não era... - Nero volta atrás e edita estranhamente o que ia dizendo. - Ele não usava terno preto. Pelo contrário: era um terno claro, um bege bem claro. Uma figura muito estranha.

- Nunca viu por aqui?

- Nunca. Nem o Tim - e apontou pro empregado fofoqueiro que parecia conhecer todo mundo da bandidagem.

Nero vai para cozinha do restaurante e fico sozinho no balcão, bebendo uma das cervejas ali mesmo. Eu sempre paro no Nero para esfriar a cabeça depois de um trabalho e ele já sacou que, quando apareço, às vezes, estou meio tenso. Ele já se acostumou a me deixar quieto e sozinho nessas ocasiões. E mais: já aprendeu a diferenciar essas ocasiões. Nero é um cara que percebe longe. Fico ali, bebendo lentamente a cerveja, por cerca de quase uma hora. São quase dez da noite quando me levanto.

Me despeço do Nero, pego um pacote com mais cervejas e volto pro carro. Isso é estranho. Pelo jeito, o tal cara não era da Máfia. Menos mal, significa que ninguém sacou ainda que o serviço foi da parte do Ted. Mas quem é esse cara?

Chego em casa, estaciono o Arbuckle e, pela primeira vez em muito tempo, tiro a lona de proteção da mala e cubro o carro. Não, não era a neve que me preocupava. Mas um Mustang 1977 é bem fácil de ser encontrado. Droga, eu sabia que esse serviço ia fazer o que nenhum outro fez: me deixar paranóico. Bom, ninguém sabe onde eu moro. Nem mesmo o Ted, ninguém.

Mal termino de cobrir o Arbuckle e escuto uma voz familiar atrás de mim:

- Preocupado com a lataria, “Mad”?

Me volto e...

Ah, não. Esse cara, agora, não.

- Boa noite, Rick.

Era o detetive Rick “Mambo” Wood. Numa viatura, dirigida por um mané que eu já vi certa vez na delegacia. Só me faltava essa.

Joe Pesci
Joe Pesci é o Inspetor-Detetive Rick “Mambo” Wood.

Ele salta do carro, abre a porta traseira e vai para o banco de trás. E então diz, apontando a porta da frente, ainda aberta:

- Entra aí, “Mad”.

Eu sopro com força, olhando pro chão. Depois, olho para “Mambo” e digo:

- Qual é, Rick? Eu tô preso?

- Não, não tá, não. Tá com medo, cara? É só pra gente bater um papo. Eu te trago de volta em quinze minutos.

Sabendo que é melhor levar “Mambo” com jeito, eu faço o que ele diz. Por sorte, deixei a automática no porta-luvas do Arbuckle. Tô limpo. Quer dizer, mais ou menos. O carro velho da polícia começa a ranger, guiado pelo troglodita silencioso, que me vigia pelo canto do olho. E então a voz irritante de “mambo” se faz ouvir:

- Como vão os negócios, “Mad”? Bem, pelo que ouvi.

Eu penso e respondo:

- É... as vendas melhoraram. Natal, você sabe.

- E... no Natal, todo mundo quer um novo cartucho de impressora. Faz sentido. Não é isso que você vende? Cartuchos de tinta?

- Não, eu... conserto computadores, você sabe.

- Ah, é verdade. O da minha sala, lá no Distrito, tem dado uns paus... Não quer ir lá ver o que tá errado? Ah, ah, ah - a risada de “Mambo” era o que ele tinha de mais irritante - Não, tô brincando, cara. Não vou fazer isso com você. Sabe o que é mais engraçado, “Mad”?

- Não, o que é mais engraçado?

- Você.

- Eu? Eu sou engraçado?

- Não, você não é engraçado. Mas tem muita coisa engraçada em você. No Distrito, por exemplo. Sabe, muita gente não para pra pensar nisso... Mas os caras da Máfia que são mais perseguidos pela polícia são os capangas. Esses só fazem merda. Entram em lojas, quebram pernas de velhinhos, destróem balcões, esse tipo de coisa. Dão problemas visíveis, se é que me entende. Então, a gente tem que pegar esses caras. Mas os assassinos...

E parou por alguns segundos, de forma curiosa, antes de continuar:

- Esses a maioria dos policiais tolera. Não gostam, entende? Claro que não. Não como gostariam de um vigilante, por exemplo. Mas alguns assassinos, poucos deles, na verdade... são tolerados. E sabe por quê?

Eu balanço a cabeça, cuidadosamente.

- Por que alguns deles - esses poucos de quem lhe falei - agem, na prática, como vigilantes. Só matam as pessoas que a polícia quer ver morta, de qualquer forma. São poucos os assassinos de aluguel que se enquadram nesse esquema. Mas você sabe disso, né? Pessoas da área de computadores são espertas. - e dá mais uma risadinha, antes de começar a fazer um rol das minhas ações ao longo dos últimos anos:

- Por exemplo, existem assassinos que só matam gente que, porra, ficariam melhor mortas, mesmo. Então, pra que se meter? Sabe, eu lembro de vários, nem preciso me esforçar. O Peter Perninha, aquele manco que traficava crack na porta dos colégios do Bronx... lembra? Ele é um exemplo. A gente não conseguia pegar o cara. E um dia ele aparece dentro de uma caçamba de lixo num beco da Avenida C, cheio de bala. Todo mundo disse: “vigilante”. “Oba!”. Mas eu, não... Eu sabia que não era serviço de vigilante. Era coisa de assassino de aluguel. Guerra de quadrilhas.

E faz mais um de seus silêncios “dramáticos”.

- A mesma coisa com o Paul... como era mesmo o nome? Paul... aquele cara que massacrou a família inteira de mafiosos, em plena Broadway.

- Paul “Amnésia” - lembra o motorista-troglodita ao meu lado, com voz de robô.

- Isso! Paul “Amnésia”... como pude esquecer, ahn? Ah, ah, ah!!

Não tem nada mais babaca que humor de policiais. Caralho, eu quero descer desse carro. Quero ir pra casa tomar minhas cervejas. Já sinto o pacote começar a pingar, as latas esquentando... “Mambo” continua:

- O Paul “Amnésia” também foi uma morte, digamos, bem recebida lá na DP. O cara escorregou e caiu do telhado de um prédio de três andares lá em Hell’s Kitchen, se espalhou todo pela calçada, maior lambança. Mas foi algo esperado. Tranquilo. E vários outros exemplos: Butch “Black Anaconda”, o gigolô... Will “Custer”, o velho psicopata dos Cipriani...

“Mambo” faz um rol de mais de dez antigos serviços... todos meus. O cara conhece todo o meu currículo. Disso eu já sabia, mas ele nunca havia falado de forma tão... explícita, antes. É quando ele diz uma coisa que faz um vento gelado lamber minha nuca:

- Mas tem um limite. Eu até entendo, sabe... Esse é um mundo de regras estranhas. Regras negras. Policiais que gostam de vigilantes. Policiais que toleram alguns assassinos de aluguel, desde que o serviço deles, na prática e involuntariamente, tenha a mesma consequência que a ação de um vigilante. Mas o limite é claro. Pelo menos, pra gente sempre é claro. Infelizmente, pra eles não é.

Quando estou quase perguntando “que limite é esse?”, “Mambo” finalmente diz:

- O limite é quando chega na grana. Uma coisa é limpar as ruas, entende? Poupar tempo e trabalho pra gente. Outra coisa é tirar doce da boca de quem tá acostumado. Sem falar que alguns doces são grandes demais, “Mad”... Doces do tamanho de Jock Rigazzalli, por exemplo. Quando um cara desses cai, é que nem um dominó. Tudo cai também. Inclusive policiais. Sabe, “Mad”? Já começou a cair.

Mais uma vez, o intervalo irritante.

- A gente passou na sua casa por acaso, sabe? Juro! Não estamos precisando do serviço de nenhum “técnico de computador” nem queremos comprar cartuchos de tinta. Eh. Não, a gente passou lá, no caminho de volta do escritório de Ted. Ted “Payola”. Conhece?

Ele me olha, com ar curioso e divertido. E então volta a falar:

- Bom, se não conhece, sinto muito. O escritório dele tava todo quebrado. Os pedaços de Ted “Payola” estavam por todo o canto. Uma das mãos estava lá embaixo, na calçada. Ah. Você acredita nisso? E não foi só ele. A secretária, os capangas, todo mundo que tava lá foi morto da forma mais escrota possível. Uma coisa muito feia de se ver. Agora, isso é o tipo de coisa de que não gostamos. Ted “Payola” mandou que matassem Jock Rigazzalli. Os caras de Rigazzalli esmagaram Ted como a barata escrota que ele era. Mas isso não vai parar aí. Eles vão querer ir até o final. E lembra do que eu falei do doce? Esse doce ia pra boca de muita gente na polícia, também.

Minha mão direita, por instinto, aperta a maçaneta da porta do carro.

145 Gramas - Capítulo 6

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O capanga que está junto à porta leva à mão direita ao bolso, enquanto Myrtes retorna do cômodo ao lado. Ela é observada com atenção pelo gorila enquanto abre a porta. Jock Rigazzalli entra, sorrindo para a esposa. Três novos gorilas estavam entrando junto com ele, mas ele cochicha algo no ouvido de um deles e o trio volta para o corredor. Enquanto Jock anda pela sala em direção ao cômodo contíguo, acompanhado por Myrtes, baixo os olhos para o telefone, que a essa altura está aberto e dividido em duas partes, na minha mão. Sinto seu olhar intrigado me fuzilar as costas e escuto ele perguntar em sussurros para Myrtes quem eu era. Ela explica algo que eu não consigo ouvir e os dois somem no outro cômodo. A porta se fecha e escuto passarem a chave pelo lado de dentro.

Pelo canto do olho, vejo que o gorila inicial permanece no interior do apartamento. Droga. Esperava que ele saísse quando Rigazzalli chegasse. É quando tenho uma idéia.
A sala onde eu, o telefone e o gorila estamos tem três portas: a que dá para o corredor do prédio, por onde eu entrei; uma que dá para o cômodo à esquerda, onde Rigazzalli e Myrtes estão; e uma outra que dá para à direita, para uma espécie de saleta. O telefone fica num canto, perto desta última porta. Levo o aparelho, as peças desmontadas e minha maleta de ferramentas para a saleta e lá executo a primeira parte do plano. Cerca de cinco minutos depois, saio da saleta com um pedaço de fio telefônico na mão. Olho com a cara mais amigável do mundo para o capanga:

- Ei... amigo. Desculpe, mas poderia me ajudar aqui? Eu preciso passar o fio do telefone por cima da porta, contornando o batente, entende? Mas estes prédios antigos são muito altos... Será que se incomodoria de me ajudar aqui? Você poderia segurar o fio sobre a porta enquanto eu verifico se a linha está funcionando.

Ele se aproxima, um leve ar de curiosidade no rosto. Eu passo o fio por cima do batente da porta e peço para que ele o mantenha assim. Enquanto o gorila italiano está com os dois braços para o alto, finjo que vou pegar o aparelho telefônico e apanho na maleta um pesado alicate de cortar fios. Dou com o treco com toda a força na cabeça dele, pelas costas.

Mas, ao invés de cair desmaiado, ele solta o fio que estava segurando e leva as duas mãos ao cocoruto, com uma expressão de dor. Me surpreendo, mas antes que ele possa gritar ou fazer qualquer coisa, aplico uma segunda pancada em sua cabeça. Desta vez ele desaba no chão, como uma versão burra da Torre de Pisa. Rapidamente, arrasto o corpo inconsciente do gigante até a saleta, escondendo-o debaixo de uma mesa.

Espio pela porta e ninguém parece ter ouvido nada. Porra, se eu levo uma pancada daquela na cabeça, eu desmaio; duas, eu morro. O que esses caras têm no crânio, gorgonzola?

Vou na ponta dos pés até a porta de entrada e, tentando fazer o menor ruído possível, giro a chave pela fechadura, trancando-a. Também passo a corrente de segurança e fecho um ferrolho, mais ao alto da porta. Para garantir mais ainda, pego uma cadeira que estava na saleta e a utilizo para travar a fechadura.

Depois, vou até a saleta e abro lentamente a janela. É esta janela que dá para a escada de incênio, que desce até o beco lá embaixo. Oito andares, dezesseis lances de escada. Vou ter que ser bem rápido. Com sorte, os capangas só vão entrar aqui quando eu já estiver quase no térreo. Vou até a maleta de ferramentas e pego o que preciso: a automática e o silenciador e encaixo um no outro. Depois, pego as minhas roupas originais, faço uma bola com elas, coloco-as dentro de um saco plástico, amarro bem e jogo pela janela, o mais longe possível. Caiu a uns 50 metros do Arbuckle. Bom.

É isso, vamos lá.

Bom... um último arranjo. Na primeira parte dessa história, eu disse que algumas coisas eu não conseguiria colocar em palavras. Então, peço a paciência de vocês, mas os próximos parágrafos serão narrados na terceira pessoa. Me sinto melhor assim.

“Mad” Williams levanta a automática. O silenciador se estende até mais alto que a sua cabeça. Ele caminha em silêncio, lentamente, até a porta do cômodo onde estão os Rigazzalli. Levanta o pé direito e, antes de agir, torce para que os dois estejam em pontos separados do quarto.

O pé desaba com força sobre a porta, levando junto todo o peso do corpo de Williams. A cena é patética: Myrtes está sentada na cama, enquanto Jock Rigazzalli está ajoelhado na frente dela, no chão, chorando. Ele se assusta e seu rosto fica ainda mais ridículo.

Um.

Dois.

Três.

Quatro.

Três na testa e um no peito, pra garantir. Myrtes ameaça gritar e “Mad” aponta a arma para ela, como quem diz “silêncio”. Os gorilas já estão gritando e batendo na porta de entrada:
“Sr. Rigazzalli??”; “Está tudo bem?”.
Mal “Mad” chega na sala e Myrtes começa a berrar. De um salto, ele alcança a saleta e pula pela janela. Começa a correr escada abaixo. Os segundos passam, tensos. Quando está no segundo andar, os gorilas conseguem arrombar a porta, quebrando as trancas, a corrente e a cadeira. Myrtes aponta em direção à janela e eles correm para a saleta. É quando a primeira parte do plano finalmente entra em ação.
“Mad” havia estendido parte do fio do telefone no chão da porta de comunicação com a saleta, preso por grampos. Bastou o primeiro cair para que os outros dois fossem ao chão, amontoados e gritando palavrões. Quando finalmente conseguem chegar à janela, “Mad” já está a dois metros do saco plástico com as roupas, correndo pelo beco. Assim que se abaixa, sem parar de correr, para alcançar a sacola, tiros começam a zunir por sua cabeça.

Ele corre em zigue-zague até o Arbuckle; entra rapidamente, gira a chave e sai da viela em questão de segundos. Quando olha pelo retrovisor, os capangas estão pulando a janela para a escada de incêndio. Quando chegarem ao chão, “Mad” já estará muito longe dali, no escritório de Ted “Payola”.

É, até que a missão correu bem. Quando estou a uns quinze quarteirões dali, desacelero um pouco, acendo um cigarro e pego o celular para chamar o Ted. Prestem atenção agora, porque desconfio que é a partir daqui que tudo dá errado.

145 Gramas - Capítulo 5

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Levanto de um salto e me visto a